Este FIAT Cinquecento “são outros 500”
Não é todos os dias que tenho na mão a chave de um verdadeiro carro de ralis, permissão para o conduzir e uma classificativa improvisada onde o fazer, pelo que esta foi uma experiência diferente de todas aquelas que tenho tido nesta aventura da Garagem. Pequeno no tamanho, mas enorme na personalidade, este FIAT Cinquecento é, como o seu proprietário o designa, um verdadeiro “diabinho”. Rapidamente percebi porquê.


Antes “dar à chave”, é importante revisitar um pouco a história desta geração Cinquecento, que teve início em 1991 quando a FIAT o lançou como um modelo de entrada da sua gama, um pequeno citadino com comprimento ligeiramente inferior a 3,25 metros, cerca de 700 kg de peso e equipado com motores a gasolina de 0,7 litros (de dois cilindros, disponível em mercados específicos), 0,9 litros e, posteriormente, com o motor FIRE de 1,1 litros, este último, já um ícone da história moderna da FIAT e também uma das estrelas deste artigo.



Logo no ano seguinte ao seu lançamento, tendo por base esta interpretação do 500 original para os anos 90, a FIAT tomou a decisão de criar um troféu de ralis monomarca, não só promovendo as capacidades do seu novo automóvel, mas criando também uma rampa de lançamento para jovens pilotos. O motor de 900 cc de 38 cavalos foi significativamente modificado, contando com alterações nos sistemas de admissão, alimentação, escape e refrigeração para elevar a potência para uns mais expressivos 55 cavalos.

Para além da nova alma dada ao pequeno motor, o Cinquecento Trofeo contava também com caixa de velocidades e embraiagem reforçadas e, no interior, obviamente, estava equipado com os obrigatórios rollcage, baquets, volante e cintos de quatro apoios, apenas para mencionar alguns dos melhoramentos incorporados. A suspensão Bilstein e a borracha aderente da Michelin garantiam ligações mais eficazes ao solo, aproveitando ao máximo a ligeireza do pequeno FIAT e a potência do agora mais espevitado motor.
O troféu foi, nas suas várias classes, bem como nos vários países onde se realizou, ano após ano, um sucesso, e para a grande final na edição de 1995 do Rallye Monte Carlo, a FIAT desenvolveu inclusivamente uma evolução segundo os regulamentos de Grupo A. Os números variam consoante as fontes de informação, mas a potência do Cinquecento quase duplicou, havendo quem refira inclusivamente 105 cv de potência.


Esta longa, mas ainda assim resumida, introdução, traz-nos a este muito especial Cinquecento Sporting, uma réplica perfeita de um dos Cinquecento oficiais que a FIAT levou ao rali de Monte Carlo em 1996, neste caso particular, do carro número 100 conduzido por Gabriele Cadringher, na época um dos elementos da direção técnica da FIA e convidado da marca italiana para aquela prova, quiçá, referem alguns, uma tentativa da FIAT o impressionar e à organização máxima responsável pelo desporto motorizado com a sua pequena, acessível, mas muito eficaz, “arma” para o mundo dos ralis.


Este exemplar foi encontrado num site de classificados para veículos de competição e após três meses de negociações e muitas videochamadas com o ex-proprietário, funcionário da equipa M-Sport e responsável pela sua construção, o Cinquecento emigrou finalmente da Polónia para Portugal, onde se estreou em provas oficiais na Rampa da Arrábida em 2021. O Rali das Camélias foi o primeiro rali português onde participou, ainda de matrícula polaca, e cinco anos depois, acumula já muitas provas no currículo e presenças em eventos como o Caramulo Motorfestival, onde a equipa Fernando e Bárbara Pereira, pai e filha, são presença assídua.
A minha experiência com este Cinquecento teve, na verdade, duas vertentes muito diferentes, mas convenientemente complementares, pois senti, enquanto “copiloto”, do que a máquina é capaz quando conduzido por quem o conhece e domina, para que depois, sentando-me ao volante, pudesse eu próprio explorar um pouco das suas capacidades e, acima de tudo, garantir que o devolvia intacto ao seu proprietário (obrigado, Fernando).


O som e as vibrações do motor são aspetos que dominaram de imediato a minha atenção, ambos constantemente presentes. Ainda do lugar do copiloto, apercebi-me da facilidade com que as rotações subiam, com o ponteiro das rotações a assumir rapidamente uma posição quase vertical que denota a chegada dos altos regimes e a entrada no redline. Com componentes internos aligeirados e uma árvore de cames especial a favorecer o funcionamento “em altas”, não é de estranhar o nervosismo do pequeno motor de 1.1 litros cuja potência ronda uns muito saudáveis 100 cavalos.


Sentar-me ao volante foi, desde logo, um momento especial. Cintos de segurança de competição, volante amovível e sistema automático de extinção não são acessórios com que esteja habituado lidar. Mas ao entusiasmo juntava-se, igualmente, algum nervosismo. Este, felizmente, rapidamente se transformou noutro tipo de sensações. Curva após curva, entre muros, fui ganhando confiança e subindo o ritmo com a certeza de que os travões de disco às quatro rodas “estavam” lá para me abrandar o entusiasmo. Estiveram sempre.


O asfalto estava ainda meio húmido, pelo que a minha falta de sensibilidade ao regressar ao acelerador aliada à vivacidade do motor resultou diversas vezes em pontuais perdas de tração que, “penalizando” o cronómetro, destacaram, por outro lado, o bonito som do motor. Mais do que a velocidade, impressiona a agilidade, com o Cinquecento a mudar de direção sem a mínima hesitação e a sua dimensão reduzida e rodas bem puxadas aos cantos a permitirem posicioná-lo com precisão onde queremos. Uma delícia.


Não sei se, há exatamente 30 anos, Gabriele Cadringher saiu do Cinquecento tão plenamente convencido das capacidades do “diabinho” da FIAT como eu saí, mesmo que, considerando a minha falta de experiência em competição, só tenha explorado uma pequena parte daquilo que é capaz de “entregar”. Mas uma coisa é certa, não são precisos 300 cavalos e elaborados sistemas de tração integral para se ter uma verdadeira experiência de ralis. Bastaram-me 10 minutos num “Turini” improvisado, 100 cv numa carroçaria leve e um chassis bem afinado para me relembrar o porquê de gostar tanto de carros pequenos. E, claro, de ralis.






