SEAT Marbella faz 40 anos. Para o celebrar, fui conduzi-lo
O pequeno Marbella é um modelo especial. Para mim porque foi, em 1990 – tinha eu 4 anos – o primeiro automóvel novo comprado pelos meus pais, e para a SEAT porque foi um dos pilares que suportou a desafiante transição da era FIAT para a atual integração no Grupo Volkswagen. O Marbella chegou ao mercado em 1986 como substituto do Panda (sim, a SEAT também tinha um Panda) e foi um dos produtos da visão e estratégia acertadas de Juan Miguel Antoñanzas, presidente da SEAT de 1977 a 1984.


O período mais difícil da história da SEAT?
Com a saída de cena da FIAT, em maio de 1980, a SEAT viu-se sem um parceiro estratégico, do qual dependia do ponto de vista tecnológico e logístico. Antoñanzas, ainda que já não liderasse a SEAT quando o Marbella foi lançado, teve um papel de extrema relevância na concretização do projeto ao não ter rompido totalmente a relação com Turim no início da década de 1980, obrigando a marca italiana a cumprir com o estabelecido nos contratos assinados, nomeadamente, no fornecimento de componentes e na exportação dos carros produzidos em Espanha. Com esta posição, a SEAT garantiu, mais do que qualquer outra coisa, tempo. Tempo que precisava para se reorganizar, quer do ponto de vista da força laboral, negociando com sindicatos, quer também do ponto de vista do produto e comercial, concebendo os seus próprios automóveis e estabelecendo uma rede de concessionários na Europa.



A FIAT não podia dar-se ao luxo de falhar com o acordo e cumpriu com o estipulado em termos do número de unidades a exportar para fora de Espanha. A SEAT tinha, no entanto, de garantir que os seus modelos fossem, por fora e por dentro, suficientemente distintos dos produzidos em Itália e com os quais partilhavam muitos dos componentes. Assim nasceu o Ronda, o polémico substituto do Ritmo (uma história para outra ocasião) e o modelo que inaugurou as designações de cidades ou regiões espanholas na gama da SEAT; o Fura 2, como evolução dos Fura 1 e 127; bem como o Marbella para o lugar do Panda, produzido de 1980 a 1986. O tempo ganho por Antoñanzas viria a dar os seus frutos, permitindo uma integração progressiva da SEAT no grupo alemão ao longo da década, uma colaboração que abriu o mercado espanhol à Volkswagen e as portas da Europa à renovada SEAT.

Para a FIAT, não era suficientemente diferente
A SEAT modificou consideravelmente o design do Panda para criar o novo Marbella. A plataforma era a mesma, mas os faróis, para-choques, capot, porta da bagageira, por exemplo, eram diferentes. Ainda assim, e tal como o Ronda, o projeto Marbella acabou nas salas de tribunais internacionais, uma vez que a FIAT não considerava o novo modelo suficientemente distinto do utilitário desenhado por Giugiaro, um projeto que a FIAT iniciou ainda em 1976.



Divergências resolvidas, o Marbella acabou por ser lançado no mercado em dezembro de 1986, sendo proposto com duas motorizações de quatro cilindros: com 843 cm3 de cilindrada, caixa de 4 velocidades e 34 cavalos; e com 903 cm3, caixa de 5 velocidades e 40 cv. O motor “843” foi recuperado do Panda 35 e equipava o Marbella Special cá de casa, mas foi o “903” que teve uma carreira mais preenchida, evoluindo, inclusivamente, em 1992, para uma alimentação por “carburador pilotado”, controlado eletronicamente, uma configuração equivalente a uma injeção monoponto, mas que era, no fundo, um carburador em que a relação estequiométrica ideal era conseguida por um controlo preciso do ar admitido no coletor. Este sistema surgiu associado à ignição eletrónica e já era compatível com catalisador para tratamento de gases, tecnologia que o Marbella também recebeu nesse mesmo ano. Esta solução foi desenvolvida pelo Centro Técnico de Martorell, em conjunto com a Weber e a Magnetti Marelli.
Injeção de combustível para encerrar evolução
Um facto mais curioso e, provavelmente, menos conhecido, é a adoção de uma verdadeira injeção de combustível monoponto em 1996 com o lançamento do Marbella Injection, tecnologia que não alterou o rendimento do motor, mas que melhorou a sua eficiência. Ao mesmo tempo, por questões de fiscalidade, a SEAT reduziu o curso dos pistões em 0,3 mm, baixando a cilindrada do motor para 899 cm3. Considerando que as origens deste motor remontam ao mítico 600, foram 43 anos de bom serviço, uma história que culminou com o Marbella em 1998, do qual a SEAT comercializou 614.727 unidades nas suas inúmeras versões: Junior, Jeans, Sprint, Red, Yellow, Black, Blue, Green, XL, GLX, Kiss, Maximoto, Nieve, Playa e também em variante comercial. Faltou-me alguma, certamente, mas variedade e criatividade não faltava para prolongar a vida ao modelo.




Para além disso, a SEAT produziu também 166.601 unidades do furgão Terra, derivado do Marbella, com o motor de 903 cm3 e, mais tarde, com motorizações Diesel de origem Volkswagen. Com o fim do ciclo de vida do simples e prático Marbella, fechou-se um capítulo iniciado 18 anos antes com o lançamento do Panda – o que fez da dupla, vista por muitos como um só modelo, uma das histórias de maior longevidade da marca, superando inclusivamente o 600 – bem como foi colocado um ponto final na produção de automóveis na fábrica da Zona Franca.
A minha estreia ao volante do Marbella
De 1990 a 1993, “conduzi” diversas vezes o “VD-43-55” cá de casa. Ou ao colo do meu Pai, em estradas que, na verdade, nem o eram ou, na maior parte das vezes, sozinho, mas com o Marbella desligado e imóvel. Era o possível e fui feliz com a ideia de que o conduzia tão bem como controlava os meus Majorette por esses muros fora. Em 1993, o Marbella deu o seu lugar a um novo Ibiza, maior, mais moderno e melhor automóvel a todos os níveis. Mas o Marbella marcou e recordo com saudade esses tempos, bem como algumas vezes em que o reencontrei, anos depois, relativamente perto de minha casa, ainda em perfeito estado de conservação.


Mas desde então, Marbella só numa viagem que fiz a Espanha, nas revistas, no Youtube e nos anúncios que tento evitar, fintando a tentação de comprar um para preservar. Conduzi-lo, nunca. Isto até há umas semanas, quando tive oportunidade de acompanhar um encontro de fãs do modelo na zona centro de Portugal e de, finalmente, conduzir o Marbella que me escapava desde 1993. E não conduzi um Marbella qualquer, mas sim um Troféu, uma edição especial limitada, produzida em exclusivo para o mercado português, que trazia para as estradas um pouco do espírito do troféu monomarca de ralis que tantos pilotos lançou por cá e em Espanha.
Nervoso miudinho e um miudinho nervoso
Estava nervoso, admito. Por lado, pela responsabilidade de estar a conduzir o “mais que tudo” de um entusiasta do Marbella, por outro, pelo facto de ser um momento para mim especial, há muito aguardado. Ou cresci muito ou tudo me pareceu mais pequeno do que recordo. Tudo tão à mão, tão ligeiro de comandos e tão mecânico, foi uma ligação imediata. Uma ligação que se reforçou, na verdade, na primeira lomba, sobre a qual imediatamente recordei a pouca capacidade de amortecimento da suspensão, especialmente atrás, com uma pancada seca que me fez recuar mais de 30 anos no tempo.


O motor é, tal como eu naquele dia estava, um miudinho nervoso, pequeno em tamanho, mas maior na alma, com um especial gosto por ser explorado e sempre muito presente, com aquela sonoridade que hoje cada vez menos se ouve e com aquela sensação de entrega tão recompensadora, que nos faz parecer ir mais depressa do que na realidade vamos. Vidros planos, uma só escova, um só retrovisor, uma antena que era extra, pneus 135 e um banco traseiro que nada mais era do que uma porção de tecido estendido entre duas barras de suporte.

Um projeto de origens simples, evoluído com poucos recursos e que, 40 anos depois, ainda que tão pequeno pelos padrões atuais, é hoje grande na importância reconhecida que teve na história da SEAT. Que bons eram os tempos em que os automóveis tinham um propósito e eram por nós conduzidos. Compactos, resistentes, simples de manter e baratos de usar. Que memórias do meu Special “VD-43-55”. Que saudades do meu Marbella.
Fotografias: SEAT Históricos
Agradecimentos: Jorge Costa, Pedro Silva, SEAT Históricos.






