Ferrari e Mazda: uma questão de “Luces”
A Ferrari mostrou há dias ao mundo o novo Luce, o seu primeiro modelo 100% elétrico, viatura de elevada performance e teor tecnológico, que partilha com um modelo Mazda de outrora nada menos que o nome, Luce, entre outras características. É caso para dizer, que há “Luces” que não se extinguem!
É um frente a frente que, afinal e vendo bem as coisas, nem o é verdadeiramente, pois nem o construtor italiano, nem o japonês entraram no campo judicial para esgrimirem os seus conceitos. Limitaram-se a uns quantos considerandos e registos, sem entrar em batalhas infindáveis, num saudável desportivismo corporativo. Isto, para além das respetivas criações nem serem das mesmas épocas ou sequer – e aqui ponham bastante “sequer” nisso – concorrenciais em termos de produto.


Para já, cada um registou a utilização da denominação, com os italianos a afirmarem que detêm o direito internacional ao nome “Ferrari Luce”, registado ao abrigo da OMPI e OEPI, organizações mundial e europeia de propriedade intelectual, fruto de pesquisas prévias em que não se identificaram direitos ativos da Mazda que impedissem a sua utilização global. Já a Mazda reagiria dias depois, chamando a si em definitivo o nome “Luce” apenas para o seu mercado no Registo de Patentes do Japão, não parecendo muito incomodada. Tal poderá significar que a Ferrari não possa ali comercializar esta nova criação, ou pelo menos com essa denominação “partilhada”. A não ser que se chegue a um acordo de cavalheiros no país do sol nascente. Aguardemos!
Era uma vez… há 60 anos e um novo há poucos dias!
O início desta história mais recente remonta a 9 de fevereiro último, quando a Ferrari anunciou oficialmente o nome “Luce” para o seu primeiro modelo 100% elétrico, que foi há dias mostrado na sua plenitude. Foi num evento em São Francisco (EUA), durante a apresentação do interior e interface, com a marca italiana a desvendar, assim, que essa sua primeira incursão no mundo da eletricidade a 100% deixava de ser “Elettrica” (denominação interna), passando a “Luce”, palavra italiana que se traduz por “luz” ou “clareza”, sublinhando uma nova filosofia de design e de eletrificação.


Só que essa mesma “luz” e “clareza” são parte da génese do Mazda Luce de 1966, automóvel de ampla superfície vidrada que chegava ao mercado da época sob a excelência estética e integração de tecnologias de vanguarda, num conceito de luxo para o segmento médio/alto de então. Trouxe com ele um pouco de Itália, sendo desenvolvido a partir de um projeto pedido à lendária casa de design Bertone, onde na altura trabalhava o famoso – e também italiano – designer Giorgetto Giugiaro, autor dos esboços iniciais do Luce como símbolo dos avanços tecnológicos e da elegância que a Mazda queria trazer ao mercado, vendo-se alvo de poucas alterações dos designers Mazda, para ir mais ao encontro dos gostos da direção da marca, que buscavam um automóvel tão moderno e de design tão elegante, que irradiasse uma personalidade deslumbrante, superior ao padrão dos modelos japoneses da época.


A “luz” do Luce japonês inundava o habitáculo através dos amplos vidros, num inovador formato em “A” que conjugava os delicados pilares A, B e C, em linhas ascendentes que convergiam no seu vértice com a linha do tejadilho, formando o travessão. A equipa de design de Hiroshima finalizaria este design italiano vanguardista integrando-lhe os icónicos faróis duplos, que conferiam ao Luce uma assinatura luminosa inovadora no seu segmento – e aqui temos outra vez mais “luz”!
A estreia da Ferrari no mundo 100% elétrico
Claro que o Ferrari Luce apresentado há dias dá vários compêndios tecnológicos ao Mazda Luce de há 60 anos, havendo, por isso, que atentar às épocas em que cada uma das viaturas surgiram, a japonesa em meados do século passado, quando os automóveis eram peças de mecânica pura, a italiana no atual e pleno boom de eletrificação e conectividade quase desenfreada do mercado automóvel.

Começando por este último, um desportivo de design um pouco estranho, nascido da veia criativa da agência LoveFrom, de Jony Ive, designer do iPhone, num formato em concha, que dá ares a uma embarcação de luxo com uma estufa em vidro, uma aerodinâmica ativa à frente e atrás e níveis de performance de relevo. No seu chassis composto por 75% de alumínio reciclado escondem-se quatro motores elétricos independentes (um por roda) que geram 772 kW / 1.050 cv de potência e binário de 900 Nm, permitindo uma aceleração de 0 a 100 km/h em apenas 2,5 segundos (310 km/h de velocidade máxima). A bateria elétrica de 122 kWh e arquitetura de 800 Volts permitirá uma autonomia máxima de até 530 km, carregando-se a 100% em poucos minutos, proporcionando experiências de condução mais longas do que o habitual. A sua exploração plena faz-se, em parte, através do novo sistema Torque Shift Engagement, através de patilhas no volante, para uma melhor gestão do binário pelo condutor, num conjunto que entre muitas outras tecnologias e soluções mecânicas, contempla uma suspensão ativa controlada eletronicamente e um também inédito sistema de direção às quatro rodas. Outra particularidade é o sistema acústico que recria a envolvência de um motor tradicional numa viatura que não o tem, numa abordagem em relação ao som baseada no princípio fundamental de que o som deve ser autêntico e funcional, gerado pela mecânica do carro e ao serviço da experiência de condução.



Já o inovador design aposta nas quatro portas, de abertura oposta – olá Mazda RX-8, olá Mazda MX-30!!! – e cinco verdadeiros lugares do Ferrari Luce, algo inédito para os lados de Maranello, gerando um maior espaço interior face a outros modelos da marca. A tecnologia é abundante, claro, mas parece que ao contrário da atual tendência do mercado, de colocar todas as funções num grande ecrã central, este Luce italiano ainda mantém botões físicos num volante, a que chama o centro da experiência de condução, e na consola central, permitindo-se uma maior, e felizmente melhor, interação com o novo desportivo. O peso do conjunto rondará os 2.260 kg.

Posicionando-se como conceito de luxo e tecnologia, numa combinando de performance e inovação, o Ferrari Luce deverá custar qualquer coisa como 550.000 euros, prevendo-se que as primeiras unidades saiam da fábrica de Maranello para entregas aos primeiros clientes no quarto trimestre de 2026.
A excelência e o luxo do Mazda Luce de há 50 anos
Dos lados de Hiroshima, com uma significativa ajudinha italiana, a excelência estética do Mazda Luce surgiu em 1966 e não deixou indiferente os mercados, naquele que foi o primeiro automóvel japonês de características de luxo, para o segmento médio/alto. Aliás, foi esse o modelo que veio definir algumas tendências de design que, entretanto, fizeram história, semeando as bases para o que hoje conhecemos como design Kodo em todos os automóveis Mazda.

Com as suas linhas arrojadas e fluidas, o Mazda Luce começou a sua carreira comercial no Japão, em agosto desse ano, seguindo-se a Europa, aqui sob a denominação Mazda 1500 / 1800, com a sua introdução em Portugal quase no final da década de ’60. Deixando uma boa impressão imediata nos mercados, o Luce apresentou-se como um concorrente topo de gama das berlinas e das carrinhas das marcas então já bem estabelecidas. O então novo modelo ocupou uma posição única no segmento dos automóveis familiares japoneses com cilindradas máximas de 1.500 cc, em termos de utilização e aproveitamento do espaço e conforto, suficientes para até seis passageiros, aproveitando ao máximo as suas medidas exteriores: 4,37 metros de comprimento, por 1,63 de largura e 1,43 de altura, para uma distância entre eixos de 2,5 metros.


Em termos mecânicos falamos, naturalmente, de conceitos diametralmente opostos às do estrondoso Ferrari Luce elétrico de 1050 cv. No seu lançamento, o Mazda Luce surgiu com um eficiente motor a gasolina de quatro cilindros, de 1,5 litros, mecânica que causou sensação com o seu, na época, inovador veio de comando de válvulas à cabeça (SOHC), permitindo rotações mais altas e uma melhor respiração, bloco de 1.490 cc que produzia 57 kW / 78 cv às 5.500 rpm e um binário de 115 Nm, entregues às rodas traseiras (mais tarde houve o 1500 SS, de duplo carburador, com 63 kW / 86 cv às 5.500 rpm e um binário de 118 Nm). Logo a seguir a oferta completou-se com um motor 1,8 litros (1.796 cc) de 76 kW / 104 cv às 5.500 rpm, para um binário de 152 Nm logo às 2.500 rpm. O peso do modelo variava dos 1.030 aos 1.070 kg.
Denominado “The Leading Lady” (“Atriz Principal”) em alguns mercados, em especial aqueles onde a nomenclatura se refere ao “automóvel” no feminino, como em Itália (“la machina”) e até mesmo no Japão, onde o substantivo “automóvel” (“jidōsha”) é neutro em género, mas onde o Luce tinha essa referência, o Mazda Luce original produzir-se-ia a partir de julho de 1966 (versões 1.5) e a partir de outubro de 1968 (1.8), grande parte delas saindo de Hiroshima, local de produção do último exemplar dessa sua primeira geração em março de 1973 (alguns Luce foram montados no Sri Lanka).
No final haveria outro Luce, um coupé de motor rotativo
Entretanto, a Mazda encomendava à Bertone uma nova versão do Luce, desta feita um coupé de duas portas que personificasse o luxo, a tecnologia e a exclusividade. Também desenhado por Giugiaro, mostrava-se em protótipo em outubro de 1967, com uma particularidade tão querida à marca de Hiroshima: um bloco de rotor duplo 13A, de 1,3 litros, com 93 kW / 124 cv e um binário de 172 Nm, tração dianteira e travões de disco à frente. Não era um coupé da Ferrari, mas para um mini-desportivo da Mazda não estava nada mal!


Curiosidade: numa altura em que um universitário recém-formado ganhava qualquer coisa como 30.000 ienes por mês, o Luce Rotary Coupe custava 1,45 a 1,75 milhões de ienes, sendo-lhe por isso, mas não só, dado o cognome “Lord of the Road”, algo para o qual também contribuiu a beleza da silhueta e a performance a alta velocidade, conseguida pelo seu baixo peso de 1.185 kg.
O Luce Rotary Coupe chegaria ao mercado em 1969 e seria fabricado até 1972, num volume de apenas 976 exemplares (fora test-mules ou veículos de exposição), sendo hoje um artigo de coleção e um dos modelos Mazda mais raros de sempre.


Presentemente só se encontram exemplares Mazda Luce (1500 / 1800) ou Luce Rotary Coupe quase só em coleções, museus da temática automóvel ou nas mãos de clientes que, determinados em manter a sua individualidade, ainda lhes acumulam quilómetros e outras tantas histórias. Outros lá aparecem, de quando em vez e a conta-gotas, em plataformas de clássicos. A sua valorização nesse mercado poderá atingir, em casos de excelência e preservação, valores dos 50.000 € aos 100.000 €, em especial para as unidades que agora completam 60 anos de estrada. Por falar nisso, Parabéns, Mazda Luce!

Uma história já encerrada, outra que está agora a iniciar-se
Ainda assim, a história do Luce da Mazda continuaria até 1991 através de mais quatro gerações: a segunda vendeu-se em alguns mercados como RX-4, em versões de motor rotativo, ou 929, com blocos térmicos mais tradicionais (1972 a 1977); a terceira, de design mais luxuoso e “americanizado”, esteve à venda até 1981; a quarta, com mais estilo e performance, até 1986; e, finalmente, o derradeiro Mazda Luce, o mais luxuoso de todos, foi fabricado de 1986 a 1991, integrando diversas mecânicas, incluindo motores V6 de 2,0 e 3,0 litros de cilindrada. E, pronto, ciclo encerrado!

Quanto ao jovem Luce, o mais recente desportivo 100% elétrico e 100% chocante da Ferrari inicia agora um novo capítulo na história da marca e até do setor automóvel, tornando-se talvez no mais ambíguo / distópico de sempre na história da marca italiana até à data. Poderá até dizer-se que ou se gosta ou não (“odeia” é uma palavra demasiado forte, mas já se vê nas infâmias das redes sociais). O modelo é “apenas” diferente do demais catálogo da Ferrari. Aliás, tinha de o ser!
Da minha parte, olhando para o conceito, ainda não consigo “encaixá-lo” como um Ferrari… a sensação que tenho é quase a mesma de quando me disseram e depois mostraram que a Ford ia ter um SUV elétrico chamado Mustang! Arghhhhhhhhhhhh… Sacrilégio!!!! Será uma questão de tempo? Isto porque passados estes anos, a digestão desse ainda não está feita! Não há Gaviscon DuoEffect que me valha!






