Ferrari Luce. O que diz a IA (e o que digo eu) sobre o futuro do primeiro elétrico de Maranello
Uma coisa é certa: o lançamento do Luce, sendo o primeiro elétrico da história de 87 anos da Ferrari, já era, por si só, um dos mais importantes de sempre. Agora, apenas alguns dias depois de ter sido oficialmente apresentado, também já é um dos mais polémicos.
E tal como a Ferrari se viu obrigada a render-se à tendência elétrica, também eu, por vezes exageradamente conservador, recorri à inteligência artificial para tentar perceber se a minha humilde interpretação do potencial de vendas do Luce tem alguma probabilidade de se confirmar.
Não questiono o impacto negativo que um automóvel tão diferente daquilo com que estamos habituados a sonhar possa causar na imagem da marca de automóveis mais icónica de todos tempos, mas acho que é preciso analisar a questão de outro ponto de vista.

“A minha previsão é que as vendas iniciais serão moderadas, mas financeiramente suficientes para a Ferrari considerar o projeto um sucesso — desde que mantenha a exclusividade.” Esta foi a resposta que obtive da inteligência artificial, seguida de três fatores principais de justificação que parecem confirmar a minha visão e expectativa para o futuro do Ferrari “a pilhas”.
Este alinhamento de ideias sobre o Luce não faz de mim um “iluminado”, nem tão pouco da IA uma fonte de informação totalmente credível ou infalível, mas dada a abordagem tecnológica da Ferrari ao desenvolvimento deste tão relevante e aguardado automóvel, não resisti à tentação de, também eu, sair da minha zona de conforto, admito.
Não vou discutir o design, o centro de toda a polémica, mas posso dizer que gosto muito do interior e que, no exterior, o maior problema no estilo do Luce é ser um Ferrari. Se em vez de um “Cavallino Rampante” por ali estivesse o logótipo de uma start-up chinesa que ninguém na Europa conhece ou se fosse produzido pela marca do ex-líder do departamento de eficiência do governo de Trump, não era uma trampa, era lindo. Não para mim, mas para muitos.

A primeira justificação dada pela IA para o hipotético sucesso comercial do elétrico italiano está relacionada com a escassez de produção. A Ferrari, ao produzir em quantidades limitadas, potencia o desejo de compra junto dos clientes, beneficiando, igualmente, a valorização do automóvel ao longo do tempo. É, para muitos, um Ferrari feio. Mas produzindo pouco ou, pelo menos, abaixo da procura, é difícil negar a ideia “vendemos tudo. Foi um sucesso”. E se há marca que o consegue, é a Ferrari, por mérito próprio.
Ponto número dois e, para mim, o mais óbvio: o Luce não é para o colecionador típico da Ferrari, o mais emocional e apaixonado pela marca. Pode até ser para o “mais doente” dos colecionadores, aquele tipo que tem de ter tudo o que a marca produza, de todas as cores, tamanhos e variantes possíveis.
O Luce nem tão pouco é para quem tem um Ferrari desde sempre e agora quer fazer a transição para um elétrico. É, sim, para os entusiastas da tecnologia, do design objetivo, em que forma é função. Para a malta que conta calorias e analisa o seu sono ao comer uma torrada barrada com abacate. As escolhas feitas no habitáculo dizem-nos isso. É caro? Claro que é. É um Ferrari para “novos Ferraristas”, um novo tipo de cliente que possa querer um elétrico de topo e que, agora, pode ser um Ferrari, imagine-se.

Esta prioridade ao “tech” e ao “gadget” foi, segundo consta, também aplicada no restrito (e muito controlado) evento de apresentação do Luce, no qual os convidados presentes se encontraram divididos. Ao que parece, os jornalistas e restantes media especializados em tecnologia tiveram prioridade e acesso exclusivo a mais informação e momentos específicos do evento realizado em Roma do que aqueles presentes que representavam o setor automóvel. E, segundo apurei, os “techheads” adoraram o Luce e a maioria dos “petrolheads” detestaram. É preciso dizer mais alguma coisa?
Por último, algo de que ainda não vi ninguém falar: o poder das redes sociais. Desde montagens também feitas em IA, aos inúmeros comentários de entusiastas desiludidos e aos dos recentes entendidos em design automóvel, só provam a rapidez com que a informação se dissemina.
Porém, nada nos garante que a Ferrari já não tenha “despachado” uns quantos Luce a quem procura algo “fora da caixa”, controverso, um acessório de moda (como tantos supercarros são infelizmente usados) que tem tanto de tecnológico como de respeitador do ambiente. Pode ser, depois de analisado o desempenho do sono e de ingerido o sumo detox, o elétrico perfeito para ir ao ginásio, “tirar” umas selfies, adicionar uns hashtags e depois seguir para o Starbucks para beber uma água cor de café enquanto se atualizam os investimentos. Pode ser o elétrico ideal para isso e quem sou eu para o questionar? A Ferrari fez, obviamente, esse “trabalho de casa” prévio.

Há, ainda, quem defenda uma verdadeira teoria da conspiração, na qual a Ferrari concebeu propositadamente um elétrico de 1050 cavalos detestável, uma desilusão visual com um motor em cada roda e 2250 kg apenas para poder dizer: “Já fizemos o elétrico. Acelera de 0 a 100 km/h em 2,5 segundos, atinge os 310 km/h e ninguém gostou. Vamos, então, reforçar a aposta nos V12 e lançar os Ferrari menos amigos do ambiente de sempre”. Lamento, mas não. Adoro um Ferrari com motor V12, mas celebremos os que ainda existem. Atualmente, Colombo, com muita pena minha, só o centro comercial.
Uma coisa é certa e isso ninguém pode negar. Nem tu, nem eu, nem a IA. Tal como a Jaguar fez no final de 2024 com a revelação do polémico concept do “Type 00” (que todos detestam e eu gosto), não se fala de outra coisa desde que o meu Sporting perdeu, justamente, a final da Taça de Portugal com o Torreense. Falamos do Ferrari Luce de manhã à noite e, como alguém disse no passado, embora eu não concorde em absoluto com a ideia, “não há má publicidade”.
Mais do que o design “terrível”, “igual a tudo o resto”, polémico, polarizador ou, como o definiu Montezemolo, ex-Presidente da Ferrari, “estamos a arriscar a destruição de um mito”, é, pelo menos para mim, que não tenho 550.000 euros para sequer ponderar a sua compra, mais importante, o momento. Este momento automóvel que estamos a viver, o qual, confirme-se, ou não, o sucesso comercial do menos emocionante automóvel de sempre da marca de automóveis mais emocionante de sempre, é história a ser escrita. Foquemo-nos nisso.






