André Citroën (de novo) imortalizado… em selo
Se há alguém, no mundo automóvel, ainda vivo ou já desaparecido, alvo de mais menções, destaques, homenagens e outras iniciativas semelhantes, será, decerto este visionário francês, criador da marca do double chevron e apologista do conceito de “democratização do automóvel para todos”. De entre as que teve, a maioria depois do seu desaparecimento, a maior ainda decorre, impulsionada pelos seus descendentes, para a transladação dos seus restos mortais para o Pantheon de Paris, onde repousam os maiores heróis da République Française. Enquanto tal não é aprovado pelas instâncias inerentes, sucedem-se as homenagens, pequenas em dimensão, mas enormes na sua essência. Mesdames e Messieurs, Monsieur André-Gustave Citroën, agora (e de novo) em selo!

Escrever uma carta tornou-se, nos dias que correm, um processo quase obsoleto, fruto da chamada “evolução tecnológica” que permite ganhar tempo (e dinheiro) com o envio de um simples email, SMS ou mensagem em plataformas dedicadas, chegando ao(s) destinatário(s) no espaço de segundos. Ainda assim, os selos de que precisávamos para fazer chegar essas antigas missivas, a quem as enviávamos, continuam a produzir-se, uns mais simples, outros bem mais especiais – os chamados “de coleção” – como este dedicado a um dos ícones do mundo automóvel.

Longe vão, assim, os tempos em que, para contar um pouco das nossas vidas, pessoais ou profissionais, recorríamos a papel e caneta, num texto redigido à mão, inserindo a carta num envelope e correndo ao posto de correios mais próximo. Ali lhe prantávamos um selo, um pequeno retângulo rendilhado, com um líquido de uma pseudocola aposto na traseira, tornando-se na dita quando molhado com saliva! “Blarghhhh” dirão os mais sensíveis, desconhecedores de tal quase extinto procedimento, ainda tão familiar à Geração X, mas já do foro (quase) paleolítico para as gerações seguintes, do pacote Millenials (menos), Z e Alpha (bem mais)! Só assim a missiva podia seguir para os/as destinatários/as, de índole profissional ou de mais pertinho do coração, chegando-lhes às mãos uns dias depois, consoante a distância. Depois, era só aguardar que a missiva atingisse os objetivos, nomeadamente através de resposta que se produzia em moldes (e tempos) semelhantes.


Extinguida essa áurea época de comunicação por carta, agora basta-nos hoje enviar um email, usar plataformas profissionais como o LinkedIn, escrever meia dúzia de linhas no WhatsApp, para cenas mais pessoais (ou, se calhar, até não), ou noutras menos ideais – mas igualmente funcionais – como os Instagrams ou Facebooks das nossas vidas. Numa altura em que tempo é dinheiro, essas trocas de mensagens agora tão imediatas, em questões de segundos, tornaram-se fundamentais para que os processos se tornassem mais fluídos e definitivos, face ao extenuante tempo em que o processo de “carta-para-lá / carta-para-cá” demorava!

Algo que, com isso, desapareceu quase na totalidade foi o então tão necessário selo, o rectangulozinho rendilhado que se lambia – sentindo no paladar um inesquecível e inigualável sabor semi-azedo – para se colar ao envelope em que a carta ou mensagem seguia. Selos agora só quase de coleção, pois até as encomendas e outras entregas do presente recorrem a uma insípida, quanto impessoal, vinheta autocolante, que faz o mesmo efeito, permitindo ao pacote seguir para o seu destino.
Filatelistas marquem nas vossas agendas: 3 de julho, em Paris
Vem tudo isto a propósito de um selo pré-anunciado há dias, para lançamento dentro de pouco mais de um mês, no qual se destaca André-Gustave Citroën, um visionário do mundo automóvel, que muitos dizem ter nascido antes do seu tempo, a 5 de fevereiro de 1878, em Paris e que também viria a falecer jovem, aos 57 anos, a 3 de julho 1935. Apesar dessa vida efémera, tornou-se num dos nomes incontornáveis do mundo automóvel, destacando-se, entre as suas inúmeras conquistas, a sua prole de viaturas, numa infindável lista que contempla – e entre muitíssimos outros – os Citroën Type A (1919), B12 (1925), Traction Avant 7, 11 e 15 CV (a partir de 1934), até mesmo influenciando automóveis do futuro, sempre sob um conceito tão seu, da “democratização do automóvel para todos”, como os icónicos 2 CV (1948) e DS (1955), surgidos após a sua morte.



Parêntesis para o pessoal mais novo: “Google it”, e não me refiro aos cada vez mais presentes restomods ou mesmo a essas recriações / reincarnações sob a mesma nomenclatura que muitas marcas agora apostam (Citroën incluída), alterando a essência dos conceitos iniciais / originais através da inevitável frugalidade do universo 100% elétrico para que algumas querem, teimosamente, que o setor automóvel avance a passos largos! Não, neste caso é mesmo para procurar os modelos originais, de outras épocas e outras realidades de cariz bem mais mecânico, com absolutamente nada de chips, placas eletrónicas, ECUs, ITs, IAs e afins. Quanto aos petrolheads, habituais seguidores dos conteúdos da Garagem, decerto saberão do que aqui se está a falar.
Voltando à nova e mais recente distinção, será nos próximos dias 3 e 4 de julho que a La Poste – os correios franceses – irá exibir ao vivo o selo e o respetivo artigo filatélico, no Carré d’Encre, em Paris, lançando-se publicamente no dia 6, numa homenagem ao criador da marca do double chevron. O bloco foi concebido e diagramado pelo artista Antoine Doré, com base em orientações conjuntas com Henri-Jacques Citroën e Delphine Citroën, o neto e respetiva esposa, herdeiros do fundador.

Trata-se de um forte e simbólico reconhecimento nacional a um nome que marcou profundamente a história industrial francesa, nomeadamente no universo automóvel, então lançando as bases do ADN da marca Citroën. “Esta homenagem celebra um homem de vanguarda, uma personalidade excecional e uma certa visão do progresso que continua a inspirar a Citroën até aos dias de hoje”, sublinha Xavier Chardon, o actual CEO da Citroën.

A iniciativa é promovida por dois historiadores, com o consentimento da família, conciliando a fidelidade histórica e a valorização de um legado em constante evolução. A ilustração do selo e respetivo documento filatélico reúne vários símbolos importantes da sua vida e obra, como a linha de montagem e o Traction Avant, a fábrica do Quai de Javel, as engrenagens mecânicas em forma de chevrons, incontornável emblema da marca, os veículos sobre lagartas Citroën-Kégresse, a Torre Eiffel iluminada com o nome “Citroën”, bem como uma homenagem às munitionnettes, operárias que trabalharam na indústria de armamentos durante a Primeira Guerra Mundial, substituindo os homens que haviam sido mobilizados para a frente de batalha. Henri-Jacques Citroën é, também, o autor do texto que acompanha o bloco de selos.
Para os eventuais interessados, colecionadores de memorabilia automóvel ou amantes do mundo da filatelia, o selo e o artigo filatélico serão vendidos em ante-estreia na sexta-feira (3 de julho), e depois também no sábado (dia 4), na Carré d’Encre, em Paris, na 13 bis rue des Mathurins. Se estiverem pela Cidade Luz, é só darem lá um saltinho e testemunharem, na primeira pessoa, esta efeméride, trazendo consigo um artigo de coleção que irá valorizar com o tempo.


Criação de Antoine Doré, o bloco de selos inclui um selo com a efígie de André Citroën e os conteúdos acima descritos num formato 30 x 40,85 mm, integrado num bloco de 110 x 160 mm. O conjunto tem uma tiragem de 330.000 exemplares, com valor facial de 2,25 € (Carta internacional). Já a lembrança filatélica tem uma tiragem de 20.000 exemplares, por um PVP de 5,00 €. O documento filatélico é mais restrito, com 3.500 exemplares a um PVP de 6,50 €.
O selo ficará depois disponível nos canais habituais da La Poste (estações de correios, site www.laposte.fr, redes sociais ou em pedidos por e-mail, em sav-phila.philaposte@laposte.fr), bem como nas lojas “Le Carré d’Encre”.
André-Gustave Citroën: um pioneiro da indústria automóvel francesa
Filho de pai holandês e mãe polaca, André-Gustave Citroën optou pela nacionalidade francesa aos 18 anos para ingressar na École Polytechnique. Em 1900, durante uma estadia na Polónia, descobriu uma inovação que seria determinante para o seu futuro: as engrenagens com dentes em espiga. Adquiriu a patente e fundou a sua primeira empresa, a Engrenages Citroën, tornando os chevrons no emblema da marca, símbolo duradouro de engenharia e ousadia.


No final da Primeira Guerra Mundial, tornou o automóvel acessível ao maior número de pessoas, ambição que permanece no seio da marca até à data, agora inerente à mobilidade elétrica, simples e acessível. Inspirado pelos métodos industriais americanos, implementou uma produção em grande escala, estruturada e eficiente, e desenvolveu uma política social pioneira. A partir de 1919, a marca conheceria um crescimento exponencial, tornando-se, no espaço de uma década, no primeiro fabricante europeu e o segundo a nível mundial, atrás da Ford.


Sob um conceito visionário, André Citroën compreendeu que a inovação passava pela comunicação, não só iluminando a Torre Eiffel com o seu nome durante uma década (de 1925 a 1936), como incentivando a realização de grandes expedições, com destaque para as quatro Cruzadas – Croisière des Sables (1922-23) pelo Deserto do Sahara, Croisière Noire (1923-24), da Argélia a Madagascar, Croisière Jaune (1931-32) de Beirute a Pequim, e Croisières Blanc (1934), atravessando o continente americano até ao Alasca – impondo uma visão audaciosa e criativa da Marca, com um objetivo claro: estar sempre vários anos à frente dos demais. E não esqueceu os mais pequenos, incentivando a criação de brinquedos dedicados, colocando as sementes que os levariam a tornarem-se futuros clientes da sua marca.



Visionário, humanista e com uma mentalidade profundamente moderna, André Citroën deixaria uma marca duradoura na indústria e na sociedade. Através deste bloco de selos, celebra-se toda a singularidade da marca e uma nova forma de imortalizar aquele que está na sua origem.

Nota final: não é a primeira vez que André Citroen e suas criações são imortalizadas em selo, pois diversos países – nomeadamente ex-colónias francesas – celebraram o engenho deste visionário ou o aniversário de alguns dos seus modelos, da Guiné Equatorial, à Nigéria, do Djibouti ao Gabão. Chegou agora a vez do seu país natal lhe prestar semelhante singular e merecida homenagem.






