Um MX-5 para recordar Le Mans 1991
Foi há 35 anos que a Mazda, contra tudo e contra todos, impôs um motor alternativo nas 24 Horas de Le Mans, através do hoje histórico 787B rotary. Foi também nessa altura que a Mazda UK decidiu criar um MX-5 “NA” único, que perpetuasse esse resultado tão surpreendente quanto apetecível. Se o primeiro tinha esse estridente bloco pistonless de 700 cv, o segundo mantinha o tradicional 1.6l de quatro cilindros com uns pozinhos que só o aproximavam a menos de um quarto da potência do enerva-vacas. Eis o Mazda MX-5 Le Mans Special Edition!
Criado e depois lançado para comemorar a surpreendente vitória da Mazda nas 24 Horas de Le Mans de 1991, com o seu 787B de motor rotativo, o MX-5 Le Mans Special Edition tornou-se, desde logo, num dos exemplares da geração “NA” mais procurados do planeta, nomeadamente por colecionadores. Produzido em apenas 24 exemplares, ostentava o mesmo esquema de cores, todos acompanhados por um Certificado de Autenticidade.



Num ano em que se comemoram os 35 anos sobre essa vitória e em vésperas de mais uma edição – a 94.ª, dentro de dias – recordamos este MX-5 ímpar, uma hoje ainda mais rara peça de coleção, pois três décadas e meia passadas apenas se conhece o paradeiro de cerca de dezena e meia destes coloridos roadsters, sendo um deles da Mazda UK, integrado no seu Heritage Centre, e outros seis de um clube britânico dedicado ao modelo, o MX-5 Owners Club, mais um algures por terras de Napoleão e mais outro na Alemanha. Todos os restantes estarão escondidos dos olhares alheios, engalanando uma qualquer garagem de exceção, ou então simplesmente já não existem, o que a ser verdade, será uma dor de alma! Em Portugal não se conhece nenhum, pelo menos oficialmente.




Baseado no MX-5 de primeira geração (“NA”), esse MX-5 Le Mans Special Edition destaca-se pela sua decoração em laranja e verde, ecoando as cores do patrocinador “RENOWN” do 787B n.º 55, empresa do mundo da moda entretanto falida, juntando-lhe umas jantes de liga leve OZ e um pequeno aileron colocado na traseira. Quanto aos interiores, aqui integralmente em preto, com bancos em pele, não houve outras alterações face ao modelo original.
Também as dimensões se mantiveram inalteradas, com 3.950 mm de comprimento, 1.675 mm de largura e 1.230 mm de altura, bem como a distância entre eixos de 2.265 mm, mas o peso do conjunto ficou um pouco acima dos 955 kg tradicionais, fruto dos extras integrados, mas sem ultrapassar em muito a ideal fasquia dos 1.000 kg que a Mazda tanto defende.



No domínio mecânico, a conversão do bloco original de quatro cilindros e 1,6 litros integrava, nestes 24 exemplares, um kit BBR Turbo, elevando a potência para os 150 cv às 6.500 rpm, para um binário de 208 Nm, junto com reforços ao nível das suspensões, com molas e amortecedores Tokico, entre outros acertos mínimos de chassis. As novas especificações permitiam-lhe acelerar dos 0 aos 100 km/h em cerca de 7 segundos, explorando-se, em pleno, a deliciosa quanto curtinha caixa manual de cinco velocidades deste seu kart de estrada!
Uma sonoridade gritante com que a raça bovina não se dá bem
Local: Circuito de La Sarthe, Le Mans, França. Data: 23 de junho de 1991. Hora: Pouco passava das 16h00 locais. Protagonista: Mazda 787B, com um motor Wankel 26B de quatro rotores (700 cv declarados numa faixa de 10.000 rpm). Piloto ao volante: Johnny Herbert (Volker Wiedler e Bertrand Gachot aguardavam nervosamente nas boxes pelo final da corrida, junto com os restantes elementos da equipa).
Inegável facto histórico: Um esguio modelo desportivo, verde e laranja, cruzava a linha de meta no primeiro lugar, alcançando uma surpreendente vitória na corrida de resistência mais famosa do mundo, depois de ter “gritado” – e ponham bastante “grito” nisso, pois o som estridente do seu bloco rotativo não deixava ninguém indiferente – pelo traçado Le Mans e ao longo de 24 horas. Consta, até, que fruto dos vários testes de preparação, realizados no Circuito de Fuji, as pobres das vaquinhas dos pastos que há nas imediações do traçado japonês entraram em choque, não conseguindo dar leite durante algum tempo!

Essa inesperada, mas tão merecida, vitória nas 24 Horas de Le Mans de 1991, premiando a arriscada aposta da Mazda e dos seus parceiros neste projeto, preparada ao longo de vários anos, fazia cair por terra o inegável poderio das até então imbatíveis e claramente favoritas equipas TWR Jaguar, Sauber Mercedes-Benz e Porsche, derrotadas pelo tão peculiar modelo de competição de estridente motor rotativo.
Mais do que um sucesso para os anais de Le Mans, esta foi uma vitória histórica do Mazda 787B, na que foi a primeira e, 35 anos passados até à data, única viatura com motor sem pistões tradicionais a vencer a mais famosa competição europeia de corridas de resistência. Foi, também a primeira vitória de sempre de um fabricante japonês na dita prova, algo que só a Toyota, entretanto, conseguiria, mas num passado ainda recente, em cinco edições consecutivas, de 2018 a 2022.
De binóculos desde Hiroshima
Hoje valiosa peça de coleção, o Mazda 787B n.º 55 encontra-se orgulhosamente exposto na sede da Mazda, em Hiroshima, assistindo à distância, decerto com alguma saudade, a todas as edições que se seguiram da prova francesa que integra o hoje denominado Campeonato do Mundo de Resistência (FIA WEC).

E eis que se prepara mais uma, a 94.ª edição das 24 Horas de Le Mans, evento recheado de conteúdos que decorrerá entre os dias 5 e 14 de junho, num vasto programa repleto de ações, nesse mesmo palco onde a Mazda alcançou, há precisamente 35 anos, esse feito histórico protagonizado por um motor rotativo, um tema tão do coração da marca nipónica.
Assim, pelas 16h00 locais de domingo dia 14, depois dos ponteiros dos relógios terem dado duas voltas completas após a bandeirada de partida, desfraldada na véspera, a essa mesma hora, saber-se-á quem mais lhe sucede no cada vez mais longo palmarés da prova. Serão as equipas oficiais que já o conseguiram no passado, como a Peugeot, Porsche, BMW, Toyota e Ferrari (vencedora das últimas 3 edições)? Ou alguma das mais improváveis estreantes Aston Martin, Cadillac, Alpine (ok… já venceu também, em tempos, mas associada à Renault) ou até mesmo a recém-estreada Genesis, marca do grupo Hyundai?


Certo é que surpresas acontecem, ainda para mais num evento de tão longa duração, em que resistência e fiabilidade são apenas duas das palavras-chave de um dicionário bem mais amplo. Tudo somado, no final “só” é preciso estar no lugar certo (no 1.º) e à hora certa (16h00 locais) para se subir ao lugar mais alto do pódio de Le Mans e ali se saborear o champanhe da vitória!
Imagens: MMUK e MME






