Ensaio (quase) Sprint: Mazda MX-5 RF Kazari
“Deste, já não há mais!” Uma das frases mais icónicas do cinema português, do ator António Silva, no filme “O Pátio das Cantigas” de 1942, adapta-se a este texto na perfeição. Isto porque o Mazda MX-5 RF aqui sprintado, ainda com motor 1.5 Skyactiv G de 132 cv, já não pode ser encomendado. A partir de agora, só o novo MY27, com mais potência e maior economia, como lhe dissemos, há dias. Mas, enquanto novo não chega, conduzimos o model year anterior, na edição especial Kazari. Afinal, nunca se diz “Não” a um MX-5!
Alguns leitores, em especial a camada mais jovem e menos cinéfila, não fará ideia de como sai esta comparação, entre um dono de uma adega alfacinha, num filme português da primeira metade do século XX, e um roadster japonês do primeiro quarto do século seguinte! Então, álcool e condução pode ser? A resposta é naturalmente negativa, não sendo esse o paralelismo, sendo antes necessário um pequeno introito.

Num filme que todos deviam ver, quanto mais não seja para cultura nacional, alternativa ao streaming, a certa altura dessa histórica película a preto e branco, de há 84 anos, “Narciso”, personagem do divertido ator Vasco Santana, espeta um longo prego numa parede de uma adega, acertando, do outro lado, numa pipa de vinho, no caso um palhete (mistura de uvas brancas e tintas, fermentadas em conjunto). Começando, milagrosamente, a jorrar em bica o dito néctar, responde ao comentário do vizinho com quem então falava com um “Não é milagre, é palheto!”, partilhando a descoberta com a vizinhança do bairro.

À mesa a almoçar, sem ideia do que se passava, “Evaristo”, personagem de António Silva, dono da dita pipa e proprietário da adega, delicia-se com um copo desse vinho, afirmando: “Isto é que é um palheto de primeira ordem… Deste, já não há mais!” Mal sabia a verdade absoluta do que expressava, de um néctar que, entretanto, já parara de correr lá fora, esgotado após uns quantos copos, taças, jarros e garrafões com que muitos o foram recolhendo e desfrutando, junto de um já bastante bem bebido “Narciso”.
Nunca se diz “Não!” a um MX-5
No caso deste nosso MX-5 não há vinho associado, mas sim gasolina, a preços por litro que já estiveram bem mais longe dos que se encontram nas prateleiras dos supermercados, do branco ou do tinto, não tanto do palheto, devido ao que se passa no nosso mundo cada vez mais descompensado!
Partindo em busca de um mais perfeito equilíbrio emocional para nos esquecermos, por breves instantes, dos problemas do mundo, tivemos connosco este desactualizado (mas, afinal, sempre atual) Mazda MX-5 RF, sublinhando o tal paralelismo da frase “Deste já não há mais!”, pois foi dada como terminada a produção da geração “ND” com a motorização 1.5 Skyactiv G de 132 cv. Mas descansem os mais ansiosos fãs do modelo, pois a partir de setembro teremos este mesmo bloco mais refinado e económico – diríamos mesmo rejuvenescido – com os tais novos 136 cv disponíveis à pressão do pedal do acelerador.


Enquanto o novo não chega, conduzimos o que há, no caso presente disfarçado de targa, uma versão RF com capota elétrica retrátil. Afinal, um MX-5 é um MX-5 e ainda que se goste mais – sim, eu sei… é relativo – do soft-top, de capota de lona, o RF é praticamente idêntico, com a particularidade de que este, que foi nosso uns quantos dias, era de uma edição especial denominada de Kazari, focada na estética e no requinte.
Representando decoração, ornamento ou estética e associado às tradições, à arte ou detalhe artesanal e à elegância, caracteriza assumidamente a marca Mazda, estando mais do que presentes nesta versão de visual sofisticado, onde se combinam tons exclusivos, como o Aero Grey Metallic da carroçaria, com a secção central da capota rígida em preto, e os interiores em Nappa Tan (beije claro) e preto, envolvendo os bancos, painéis de portas, tablier e consola central, num conjunto de materiais de qualidade superior e equipamento premium. Focada no conforto, esta versão Kazari inclui, para além dos confortáveis bancos com suporte lateral e colunas integradas, um sistema de som evoluído da Bose e múltiplas tecnologias de assistência à condução. O conjunto contava ainda com pedais desportivos em alumínio e proteções de embaladeiras com logo “MX-5”, dois acessórios disponíveis na gama.
Fórmula inalterada: puro, simples e sem grandes invenções
Não há muito mais a acrescentar do conceito que envolve o Mazda MX-5, um dos automóveis que, apesar da sua especificidade e (algumas) limitações, se mantém como um dos preferidos do planeta, modelo que tem sido presença assídua na Garagem, em ensaios mais completos, como este, também de um RF mas de 2019, em passeios de um clube que lhe é devoto, ou como este em que fomos ao Alentejo comemorar os seus 30 anos… e beber vinho! Mas também como companheiro de viagens de fim de semana, podendo recordar duas dessas nossas experiências, uma à Serra da Estrela (aqui), em 2020, e outra em que percorremos a inigualável EN2 (aqui), dois anos depois.

Quanto a este exemplar de que “já não há mais”, mantém toda a sua génese original, sendo espelho da simplicidade do que verdadeiramente deve ser um automóvel: um volante, um motorzinho atmosférico espevitado q.b. – os aqui 132 equídeos chegam e sobram para aquela doce provocação – tração às rodas traseiras, uma caixa de seis velocidades curtinhas, tudo integrado num chassis de excelente afinação, para um conjunto na ordem dos 1.000 quilos, que não engorda, apesar das atualizações integradas a cada model year.
A bordo, pouca ou quase nenhuma distração dos cada vez maiores ecrãs em que lá se enfia tudo e mais alguma coisa. Aqui não temos disso, o que está à mão é para usar e para desfrutar, incluindo o pequeno ecrã central, com menus mais do que suficientes e que até pode ser operado através do Rotary Commander colocado entre os bancos. Uma solução que, infelizmente, tem vindo a desaparecer dos mais recentes modelos da Mazda: os elétricos 6e e CX-6e não os têm de todo e até o novo CX-5 abdicou desse joystick tão, mas tão, prático e intuitivo! Porquê Mazda, porquê? Chamam-lhe “evolução tecnológica”. Eu respondo-lhes com um “Ehhppp…!”.
Do lado da condução apenas duas palavrinhas: Jinba Ittai
A antecipação a sentarmo-nos ao volante de um MX-5 é sempre de satisfação, independentemente dos problemas que tenhamos em mãos, do estado de espírito à saída do escritório, de uma reunião com um cliente, ou até de casa. À abertura de portas, sentamo-nos quase ao nível do chão e não nos importamos com a ginástica necessária, para depois acionarmos o botão – físico, sublinhe-se!!! – para abertura da capota elétrica, operação de apenas 13 segundos, atraindo, quase sempre, os olhares de quem por nós passa. Em especial a miudagem que, de olhos arregalados, solta um sonoro quanto espontâneo “Pai/Mãe… olha olha… já viste?”

Quanto a nós, lá dentro, de sorriso nos lábios e de alma cheia, premimos o botão de arranque e saímos estrada fora, explorando as curtinhas relações de uma caixa de velocidades cuja manete parece ter sido mesmo feita para ser acariciada pela nossa palma da mão, para desfrutar das curvas neste autêntico kart de estrada. À 1.ª segue-se a 2.ª e depois uma 3.ª, já com as rotações a subir e o identificável ronco seco de um motor puramente térmico, sem eletrificações associadas, seguindo-se as restantes 4.ª, 5.ª e 6.ª, que nos levam a secções de estrada que, mesmo quando feitas a velocidades regulamentares, perecem sempre chamar-nos para mais um bocadinho: “Anda, vem até cá! Aqui podes explorar esse chassis e sentir como te fundes com o teu roadster”.
Sem que sintamos o tempo a passar, as curvas sucedem-se, ao ritmo das relações e das rotações que sobem e descem, nunca nos cansando deste pequenino/grande brinquedo para adultos, até mesmo quando o sol já desapareceu no horizonte e o fresco da noite nos obriga a fechar a capota!
E pronto, venha o próximo, uma vez mais rejuvenescido
Tudo o que é bom tem de acabar, diz o ditado, seguindo-se no final do período de ensaios a dor de alma da devolução, ainda que nos prometam, desde logo que, num futuro não muito longínquo, lá teremos um novo Mazda MX-5 estacionado na Garagem. Se quiser relembrar (ou saber) o que aí vem, leia aqui.

É e será sempre novo, apesar dos quase onze anos de vida desta geração ND que parece nunca envelhecer, reinventando-se a cada model year, sendo mais do mesmo, mas sem o parecer, algo simplesmente fantástico, espelho da alma do original MX-5 NA, apresentado no Salão de Chicago de 1989, que a Mazda encerra em cada exemplar produzido e já são muitos, 330.000 desta quarta geração “ND”, parte de um total que rapidamente se aproxima da fasquia das 1.300.000 unidades… and counting!

Se conhecerem outro automóvel assim digam-me! Ando nisto há algumas décadas – até mais do que a própria idade do tema deste “Ensaio (Quase) Sprint Mas Que Afinal Ficou Total” – e não conheço nenhum que o iguale. Em mim nota-se desde logo: quando escrevo sobre o MX-5 parece o mesmo de quando me sento ao volante… os textos e as estradas nunca mais acabam…!






