O mito “Rosalie”: 95 anos sobre a ousadia que ditou uma história de recordes
Hoje falamos de automóveis de série dos anos 30 do século passado que a marca de lubrificantes Yacco começou por transformar em protagonistas de extraordinárias proezas de resistência e de velocidade. Capazes de estabelecer centenas de recordes internacionais e mundiais, viriam a consagrar a ousadia, a fiabilidade, a robustez e o espírito pioneiro da marca Citroën. Eis a epopeia dos projetos “Rosalie”!

Os conceitos de velocidade, capacidade inventiva e poder industrial eram, na primeira metade do século passado, bastante entusiasmantes, num movimento futurista que separava, definitivamente, os automóveis do conceito de “carruagens sem cavalos”. Passaram, assim, a ser comuns as corridas de velocidade, as de resistência e até as de durabilidade, tendo muitas delas desfechos frequentemente trágicos. Não é o caso do que vamos passar a contar nas linhas que se seguem.
Visionário na sua época, um tal de André Citroën não gostava desse tipo de proezas, preferindo direcionar as suas viaturas para as famílias e para os trabalhadores, apostando na segurança, na fiabilidade, no conforto e na sua vertente prática, deixando de lado os bólidos lançados a velocidades loucas, muitos com condutores imprudentes ao volante.

Preferia dinamizar as chamadas “Caravanas Citroën”, levando os seus novos modelos às praças das grandes cidades, para que as pessoas pudessem comprovar, em primeira mão, a sua robustez e fiabilidade. Mas teve também o seu grau de loucura, com parte as inesquecíveis “Croisieres Citroën”, decidindo-se atravessar desertos, como o do Saara com os Autochenille Type B2, veículos com lagartas, preparando-se depois para chegar à China com conceitos semelhantes. Dizia visarem demonstrar a proverbial segurança e robustez dos seus veículos, processos que eram feitos a velocidades mais simpáticas do que as loucas corridas com viaturas raramente preparadas para o efeito.
Só que, um determinado dia, um certo conceito chamado “Rosalie” fê-lo mudar de ideias!
Um Citroën C6 F chamado “Rosalie” bate 14 recordes internacionais
Localidade: Paris. Ano: 1931. A Yacco, reputada empresa de óleos e lubrificantes, decidiu autopromover-se, testando o seu novo óleo em automóveis de série, recaindo a escolha num modelo Citroën, um C6 F, especialmente equipado com uma carroçaria em alumínio perfilado, concebida por César Marchand, mecânico especialista em afinação e piloto formado nas fileiras da Voisin. Em setembro, o carro fica pronto, mas a Yacco precisava de um nome de código para o projeto, alguém se lembrando que as festas da localidade italiana de Santa Rosalia se celebrava no início de setembro, pelo que os seus responsáveis batizaram o protótipo de “Rosalie”.
Sim, é no mínimo estranho que num projeto de génese 100% francesa, grande parte dele desenvolvido no circuito francês de Monthéry, alguém se lembrasse de fazer a ligação à padroeira de Palermo, mas tudo indica que o seu nome foi escolhido apenas por coincidir com a data da festa religiosa, não por motivos geográficos, culturais ou técnicos.

Seria sob o olhar atento dos Comissários da Associação Internacional de Clubes Automóveis (antecessora da hoje Federação Internacional do Automóvel) que, a 22 de outubro de 1931, a original “Rosalie” daria início ao seu feito, percorrendo, no perímetro do Circuito de Montlhéry, até ao dia 1 de novembro desse ano, nada menos do que 25.000 quilómetros. Contando ao volante com cinco pilotos – os irmãos Lucien e César Marchand, sendo o primeiro responsável pela regularidade, tipo chefe de equipa, e o segundo também mecânico, ajudados por Raphaël Fortin, Marcel Combettes e Le Roy de Présale – nele bateram-se 14 recordes internacionais vigentes na altura, nomes que, na sua maioria, haveriam de estar presentes nos projetos seguintes.

Entusiasmado com os resultados, Marchand apostaria noutro modelo Citroën para o projeto “Rosalie II”, um C6 G, equipando-o com a mesma carroçaria aerodinâmica do C6 F. De novo usando o traçado francês, entrou em pista a 5 de março de 1932, de lá saindo no dia 14 de abril, quadruplicando a quilometragem percorrida. Foram 100.000 longos quilómetros quase sem paragens, a não ser para as necessidades essenciais da viatura e dos condutores que se revezavam ao seu volante. A uma média de 108 km/h, registava 60 recordes internacionais e 30 mundiais na categoria de viaturas com motores de 2 a 3 litros de cilindrada.
André Citroën arrisca aposta no valor de um milhão de Francos Franceses
Embora relutante em participar em competições, André Citroën não pôde mais ignorar os sucessos alcançados pelos seus C6 “Rosalie I” e “Rosalie II”, projetos que oficialmente não levavam o seu nome. Propõe-se, então, celebrar o feito do segundo com um grande banquete, sendo ele próprio a agitar a bandeira axadrezada, dando por terminada a ação do já chamado de “automóvel dos recordes”.
Reforçando a sua confiança nas capacidades do C6, Citroën propôs então que a viatura voltasse a entrar para a pista, para percorrer mais quilómetros, que viriam a ser mais 34.000, num processo que durou até 28 de abril de 1932, dia em que o “Rosalie II” teve mesmo de parar devido a uma avaria na direção.

Num autêntico golpe de mestre, o precursor do double chevron arriscaria bem alto, colocando em jogo um montante de um milhão de Francos Franceses para a marca automóvel que, até ao dia 1 de outubro de 1932, conseguisse bater os recordes do “Rosalie II”! Uma arriscada aposta, que o poderia pôr em maus lenções, mas que felizmente ninguém viria a reclamar.
Aproveitando a visibilidade dos feitos então alcançados, Citroën passou a usar a denominação “Rosalie” em vários modelos de série da sua marca que, equipados com uma carroçaria especial, estariam destinados a bater múltiplos recordes.
“Petite Rosalie”, um terceiro capítulo com quase 300 recordes
Do “Rosalie III” não há grande documentação pública sobre os feitos alcançados, surgindo menções aqui e ali como parte da linhagem, mas sem qualquer ficha técnica, datas exatas ou lista de recordes, pelo que passemos de imediato ao projeto seguinte, o “Rosalie IV”, que deitaria por terra todos os recordes anteriores.

Foi sob orientação de Citroën, em colaboração com César Marchand e a Yacco, que em 1933 surgiu um Citroën 8CV com uma carroçaria aerodinâmica e o número “IV” nas laterais, que se batizou de “Petite Rosalie”. Montlhéry voltava a ser o palco para a nova maratona de durabilidade e de resistência, sob regras bem mais restritas, permitindo-se apenas a substituição de peças mecânicas sujeitas a desgaste normal e paragens de poucos minutos para reabastecimento ou substituição dos condutores. Em caso de avarias ou acidentes, os cronómetros seriam parados, dando-se a prova por terminada.
Foram de novo cinco os pilotos que, a partir do dia 15 de março de 1933, se revezaram a cada cinco horas ao volante, os mesmos do projeto original, mas aqui ajudados por Alphonse Vaillant e Robert Bodecot. O formidável Citroën 8CV “Petite Rosalie” esteve em pista ininterruptamente ao longo de quatro meses, até ao dia 27 de julho, percorrendo 300.000 quilómetros, a uma média de 93,5 km/h. Bateram-se nada menos do que 297 recordes, 191 deles internacionais, incluindo o melhor desempenho entre os automóveis da sua cilindrada, e 106 mundiais, incluindo o feito absoluto de melhor desempenho, independentemente da cilindrada do motor.
Quem quer ganhar três milhões de Francos?
Note-se que o “Petite Rosalie” não parou devido a um qualquer problema técnico, tendo sido por decisão do próprio André Citroën, que aquando da “cerimónia de paragem” lançaria novo desafio: “Se houver uma marca automóvel capaz de fazer melhor do que nós, que o prove: se entre hoje e o dia 1 de janeiro de 1935 um dos seus carros percorrer mais de trezentos mil quilómetros sem parar, a uma velocidade média superior à mantida pela ‘Petite Rosalie’, pagarei de imediato, três milhões de Francos Franceses!”.

Uma aposta ainda mais arriscada, ditada pela ousadia e pela consciência das excelentes qualidades Citroën 8CV, que também não daria em nada, pois nunca ninguém viria a reclamar essa avultada quantia. Que melhor publicidade poderia haver?
A longa epopeia dos “Rosalie” duraria até 1936
Enquanto a “Petite Rosalie” acumulava quilómetros e batia recordes, outro automóvel andaria por aquela mesma pista, um 15CV, com motor de seis cilindros e carroçaria idêntica à das suas irmãs. Chamado de “Rosalie V”, rodou em Montlhéry de 26 de abril a 24 de maio de 1933, apenas percorrendo 80.000 quilómetros, fazendo uma média de 119 km/h, sucessos que seriam ofuscados pelos do imparável 8CV.

A epopeia dos recordes das “Rosalie” continuaria com a “Rosalie VI”, outro conceito então com base no 15CV, com motor de seis cilindros, equipado com carroçaria desportiva monoposto, que rodou na pista durante apenas dois dias, em abril de 1934, mas a uma velocidade decididamente elevada, estabelecendo vários recordes acima da barreira dos 150 km/h.
Fazendo a sua estreia no Salão do Automóvel de Paris de 1934, surgia um novo modelo Citroën, o Traction Avant, a “Reine de la Route” (“Rainha das Estradas”), sendo um 7B a assumir o papel da “Rosalie VII”. Um ano depois, e pela terceira vez na história, usou-se um 15CV com motor de seis cilindros e a carroçaria desportiva monoposto da sua antecessora, para se baterem vários recordes de velocidade acima dos 145 km/h.
Eventualmente cansado de tanta repetição, o sucesso junto do público foi esmorecendo, até que se deu por terminada a campanha publicitária idealizada por André Citroën, baseada na “fiabilidade e robustez”.
Automóveis ousados e independentes, que alimentaram o mito da Citroën
Automóveis ousados e independentes que ultrapassam, com naturalidade, o seu próprio mito, as versões “Rosalie” deram origem a outros projetos paralelos, rezando nas crónicas da época os recordes não oficiais de, pelo menos, mais dois exemplares.

Um 15CV Spido, fabricado pela Société des Huiles Spidoléine, com uma aerodinâmica bem estudada que percorreu, entre abril e junho de 1933, 20.000 quilómetros a uma média de 132 km/h, batendo de uma só vez 15 recordes internacionais. E depois um Traction Avant (berlina com potência fiscal de 11CV) denominado de “Rosalie IX”, totalmente de série e com carroçaria original, modelo que percorreu 100.000 quilómetros a uma média de 1.500 quilómetros por dia, não em qualquer pista, mas em estradas normais francesas. Os pilotos eram concessionários e agentes da Citroën, estando a mecânica a cargo da equipa de César Marchand; estávamos em 1936, altura em que os robustos Citroën Traction Avant saem das pistas e dos circuitos mundiais, começando a colecionar vitórias nos ralis de estrada.
Mas isso é já toda uma outra história dentro da infindável história do automóvel!






