Ford festejou duas triplas em Goodwood
A Ford esteve em grande na edição de 2026 do Goodwood Festival of Speed. Por um lado alcançou a sua terceira vitória consecutiva na sessão final do Timed Shoot-Out, com um bastante elaborado Mustang, repetindo o feito das duas edições anteriores – em 2025 com uma (pseudo) pick-up e em 2024 com um (pseudo) furgão – assentes em denominadores comuns: brutais motores 100% elétricos e o champanhe da vitória. De configuração diametralmente oposta eram os três 100% térmicos e puros Ford GT40 MKII, vencedores de Le Mans 1966, de novo juntos para a recriação de uma icónica fotografia.
Depois do feito alcançado com um furgão Transit SuperVan 4.2 há dois anos, repetido no ano seguinte com uma pick-up F-150 Lightning SuperTruck, a Ford Racing garantiu a sua terceira vitória absoluta no Goodwood Festival of Speed, registando a melhor marca na derradeira sessão do Timed Shoot-Out de 2026, desta feita com um bem mais consensual – mas não menos impressionante – Super Mustang Mach-E, variante adaptada do veículo que há menos de um mês vencera a subida de Pikes Peak, nos EUA.

O programa da marca norte-americana integrou, ainda e entre outros pontos de interesse, o regresso ao ativo de outra tripla, espelhada pela presença dos mesmíssimos três exemplares Ford GT MKII que, em 1966, limparam todos os lugares do pódio das 24 Horas de Le Mans, infligindo uma dura e pesada derrota à até então todo-poderosa Scuderia Ferrari, no domínio das corridas de resistência.

Super Mustang Mach-E garante o “tri” da Ford Racing em Goodwood
Ainda a recuperar dos festejos relativos à conquista do cobiçado título de “King of the Mountain”, na Pikes Peak Hill Climb de 2026, o Super Mustang Mach-E – conceito que a Ford denomina de “veículo de demonstração elétrico” – registou, há dias, o tempo mais rápido no Timed Shoot-Out do Goodwood Festival of Speed deste ano, com isso, a primeira posição na cada vez mais icónica prova de rampa britânica.
Conduzido pelo multidiscliplinar piloto francês Romain Dumas, cada vez mais especialista em subidas de montanha – já soma cinco vitórias no palmarés de Goodwood – o Super Mustang Mach-E parou o cronómetro nos 41,98 segundos, registo que surpreendeu a própria Ford, afirmando que parecia impossível de alcançar na sequência das suas próprias simulações internas. Com isso, bateu os 43,22 segundos que o mesmo Dumas fizera em 2025 com a F-150 Lightning SuperTruck e, naturalmente os 43,98 segundos da Transit SuperVan 4.2, da vitória de 2024.

O impressionante e 100% elétrico Super Mustang Mach-E impôs-se, assim, num pódio que no 2.º lugar teve o monolugar GEN4 de Fórmula E (42,46 segundos), que será usado na temporada de 2026-27, terminando no 3.º lugar uma barchetta Shadow-Chevrolet (46,31 segundos). O top-5 integrou o Volkswagen Polo WRX, da disciplina de rallycross (46,32 segundos) e a BMW M3 Touring 24H, brutal carrinha que a marca desenvolveu e inscreveu em provas de resistência de 24 horas para a categoria GT, como Spa ou Nurburgring (46,34 segundos).
Esta vitória é um testemunho das equipas da Ford Racing e da sua parceira STARD, no desenvolvimento dos motores e baterias elétricas, continuando a expandir os limites do possível através de veículos de competição 100% elétricos, impulsionando os avanços em termos de inovação e tecnologias para os futuros projetos de competição e de estrada convencionais, da marca da oval azul.
Já o recorde de Goodwood mantém-se na posse de Max Chilton desde 2022, quando aos comandos de um impressionante McMurtry Spéirling 100% elétrico parou o chrono nos 39,081 segundos. Nessa edição destronou Nick Heidfeld, piloto que durante mais de duas décadas esteve no topo da lista dos melhores tempos, com 41,6 segundos, registado em 1999 com um McLaren MP4/13, o monolugar de Fórmula 1 que ostentava o título de Campeão do Mundo de Construtores.
Ford recria final das 24 Horas de Le Mans
Mas esta edição de 2026 do Goodwood Festival of Speed ficaria marcada por outra tripla da Ford, espelhada na presença dos três GT40 que em 1966, e na sua terceira tentativa, venceram categoricamente as 24 Horas de Le Mans desse ano, infligindo à Ferrari uma das mais pesadas derrotas da sua história no motorsport mundial.

Não o fizeram por menos, recriando em Goodwood um dos finais de corrida mais famosas da história do automobilismo, quando naquele ano os três Ford GT40 receberam a bandeirada final em formação, numa corrida onde garantiram os três lugares do pódio. Sessenta anos passados, esse momento histórico foi agora revivido e recriado, com as mesmas viaturas que estiveram presentes em La Sarthe, e que não estavam juntos num mesmo local desde 1969.
Recorde-se que Ford chegou a La Sarthe preparada para a vitória, inscrevendo nada menos do que oito GT40, três da Shelby America – a considerada equipa de fábrica oficial – mais três viaturas da Holman & Moody e duas da Alan Mann Racing. Para a história ficou a vitória do GT40 da Shelby, de Bruce McLaren e Chris Amon, seguindo-se os companheiros Ken Miles e Denny Hulme, fechando-se o pódio com Ronnie Bucknum e Dick Hutcherson, no GT40 inscrito pela Holman & Moody. O processo envolveu a própria organização da prova, que então autorizou essa formação final para um inédito photo finish, com os dois carros da Shelby mais perto um do outro, colocando-se um pouco mais atrás o terceiro, que rolava a 12 voltas do vencedor.

Desta feita, em Goodwood 2026, apesar da distância temporal de sessenta anos e regional, de Le Mans (França) para Goodwood (Inglaterra), registou-se uma espécie de dejà-vu, voltando a apresentar-se nessas mesmas posições, e também para a foto, os mesmos três GT40 MKII que hoje são todos parte integrante da coleção da Miller Family Automobile Foundation. O chassis P/1015 entrou na coleção em 1999 e o P/1016 em 2018, sendo, respetivamente, o segundo e o terceiro classificados na prova, faltando-lhes, até há bem pouco tempo, o chassis vencedor (P/1046), que agora se juntou aos seus velhinhos companheiros de aventuras. Os pilotos que aqui conduziram os três GT40 MKII eram todos Andretti, respetivamente Mário (Campeão de F1 em 1978), Michael e Marco.
De Goodwood a valiosa tripla rumará às instalações da família, para preparação para a próxima aparição conjunta, no Goodwood Revival by Dunlop (18 a 20 de setembro), proporcionando-se nova oportunidade de assistir a um dos capítulos mais marcantes da história do automobilismo.
Ford Super Mustang Mach-E vs Ford GT40 MKII
O Ford Super Mustang Mach-E é um protótipo elétrico desenvolvido em exclusivo para competição, nomeadamente para provas de subida de montanha como Pikes Peak e Goodwood. Com tração integral, é alimentado por três motores elétricos STARD UHP de seis fases, que geram mais de 1.400 cv, uma bateria NMC de polímero de lítio de ultra-elevado desempenho de 50 kWh e um sistema de voltagem de 799V, alcançando uma regeneração em travagem de até 710 kW, com mais de 3,1 toneladas de força descendente, para uma velocidade máxima superior a 240 km/h. Dotado de uma agressiva aerodinâmica, conta com um sistema de travagem específico em carbono, jantes em magnésio forjado e pneus Pirelli P-Zero, também de conceção específica.



Fotografia: RM Sotheby’s
Sendo a antítese da atual tendência elétrica, os Ford GT40 MKII de Le Mans 1966 contavam com um puro e imponente motor V8 de 7,0 litros (6.982 cc), derivado da NASCAR, que desenvolvia 485 cv às 6.200 rpm e cerca de 644 Nm de binário, entre as 3.200 e as 3.600 rpm, às rodas traseiras, associado a uma caixa manual Kar Kraft de quatro velocidades Ford T-44. Com uma estrutura em monocoque de aço, com subestruturas dianteira e traseira e carroçaria em fibra de vidro e componentes de alumínio, o conjunto pesava cerca de 1.207 kg. Os travões eram de discos ventilados às quatro rodas, que montavam pneus Goodyear G7 Blue Streak (9,75 x 15 à frente e 12,80 x 15 atrás).






