Será “Um por todos e todos por um!” o novo lema japonês?
Popularizada pelo romance clássico “Os Três Mosqueteiros”, poderá estar a desenvolver-se uma aliança na indústria automóvel japonesa para enfrentar a vizinha China, país que, a cada mês que passa, conquista valiosos pontos percentuais nas até há bem pouco tempo quase impenetráveis tabelas de vendas locais. A sugestão vem de Koji Sato, Chief Industry Officer da Toyota, deixando um aviso bem claro: “Se as coisas não mudarem, não iremos sobreviver!”
Após inúmeras tentativas no passado, todas goradas pelas mais diversas razões e interesses instalados, será que é desta que os construtores japoneses se entendem e colocam de parte esse seu lado individualista, defendendo-se como um todo? A pergunta coloca-se em face da ameaça chinesa que, quer por lá como por cá, está a deixar em polvorosa o setor. Nunca por ali foi tão premente essa famosa frase do clássico “Os Três Mosqueteiros”, de Alexandre Dumas (1844), em cujo enredo há quatro protagonistas (Athos, Porthos, Aramis e D’Artagnan) que adotam essa divisa, com o grupo a proteger cada integrante e que este, caso seja necessário, se sacrifica pelo grupo. Veremos quem põe a cabeça no choupo se se chegar a essa situação limite.

Solidariedade, união e lealdade absoluta são os pilares em que assenta o “Um por todos e todos por um!”, algo que poderá estar em vias de se tornar (finalmente) realidade entre os sete maiores produtores automóveis japoneses: Toyota, Honda, Mazda, Mitsubishi, Nissan, Subaru e Suzuki. A acontecer será uma mudança estratégica, profunda, mas necessária, fruto dessa acelerada ascensão chinesa nos mercados globais, no caso presente, no outrora quase impenetrável Japão.
A potencial aliança foi mencionada por Koji Sato, ex-CEO e atual Chief Industry Officer da Toyota, hoje também no cargo de Presidente da Associação de Construtores Automóveis do Japão (JAMA), durante uma reunião anual com fornecedores, e depois replicada numa entrevista à Automotive News, defendendo a criação de um acordo entre os maiores construtores locais, visando o reforço da sua competitividade, interna e a nível internacional, e para travar a crescente perda de quota de mercado, acentuada nos últimos anos.

Assegurando que nenhuma das marcas perderia a sua identidade, a proposta centra-se antes na criação de um conjunto de normas comuns para a estandardização de componentes estruturais, nomeadamente os que não são visíveis ao consumidor (cablagens, plásticos técnicos, tipos de aço, sistemas de refrigeração ou módulos eletrónicos básicos), elementos que, essenciais ao funcionamento dos veículos, não influenciam diretamente a perceção do cliente, permitindo assim uma abordagem colaborativa sem comprometer a imagem das marcas envolvidas. Ao partilhar o seu desenvolvimento, os fabricantes japoneses poderiam reduzir custos relacionados com compras, desenvolvimento e produção, permitindo-lhes acelerar múltiplos processos e garantir uma maior eficiência na cadeia de fornecimento.
Este desejado movimento surge num contexto de forte pressão competitiva, numa altura em que várias marcas chinesas continuam a conquistar terreno significativo nos mercados internacionais, até mesmo no País do Sol Nascente, graças a estruturas de custos mais baixas, fortes apoios governamentais e rápida capacidade de inovação, especialmente no domínio dos veículos elétricos. O inverso acontece na China, mercado em que os construtores japoneses continuam a perder vendas e quota de mercado.

Essa padronização de componentes permitiria aos construtores japoneses libertar recursos e concentrar uma maior fatia de investimento em áreas que realmente diferenciam os seus automóveis, como a eletrificação, software, segurança avançada, conectividade e experiência digital. Contendo esses elementos invisíveis partilhados, cada marca continuaria a competir nas áreas de design, de experiência de condução, interface digital e funcionalidades exclusivas.
A iniciativa também pretende reforçar a resiliência industrial do Japão, que enfrenta desafios estruturais, como escassez de mão de obra especializada, aumento dos custos energéticos e atraso na transição para veículos elétricos, país onde a essa adoção ainda é lenta (abaixo dos 10%), face à Europa (perto dos 30%) ou China (já acima dos 50%). Ao unirem esforços em redor de um objetivo comum, os fabricantes japoneses poderão negociar melhor com fornecedores, reduzir redundâncias e garantir que o país mantém um papel relevante na definição das tecnologias automóveis a nível global.


Se vier, de facto, a avançar, esta aliança representará uma das maiores transformações da história da indústria automóvel japonesa, tradicionalmente marcada por forte competitividade interna e independência tecnológica. Koji Sato defende que o momento exige coragem e pragmatismo: só uma estratégia coletiva permitirá ao Japão enfrentar a nova geração de concorrentes chineses, que combinam escala, velocidade e preços agressivos, assegurando que o país continue a ser uma potência automóvel global. Neste mercado em hiper-rápida mutação, o aviso é claro como água: “Se as coisas não mudarem, não iremos sobreviver!”






