Ensaio Total: Firefly Comfort
Sei que já o disse no passado e, assim, “bato na mesma tecla” ao afirmar que a total eletrificação do automóvel começa agora a fazer todo o sentido, com modelos mais pequenos e leves que, à partida, levam vantagem em termos de eficiência e custos perante os 100% elétricos volumosos, pesadões, caros e fãs de médias de consumo acima dos 20 kWh/100 km.
Este Firefly, marca subsidiária da Nio e representada em Portugal pelo Grupo JAP, é disto um grande exemplo. Um hatchback com sensivelmente 4 metros de comprimento e 2,6 metros de distância entre eixos que se apresenta com um design diferenciador, apostando em soluções como a original iluminação de três elementos, à frente e atrás, e um arco de carroçaria que une os pilares C para fazer frente a uma concorrência de peso – não só do ponto de vista estético – como o Renault 5 E-Tech e o FIAT Grande Panda.

O habitáculo é também ele merecedor de elogios, transmitindo uma sensação de tranquilidade de que me soube bem usufruir no dia a dia. O teto panorâmico e o facto de não contar com consola central aumentam a noção de espaço a bordo, todo ele muito bem aproveitado. As portas e o tablier contam com materiais macios na zona superior e o conforto interior é também complementado pelo excelente sistema de som de 14 colunas Dolby Atmos.

Ainda que praticamente todas as funcionalidades sejam controladas a partir do sistema de infotainment, com ecrã de 13,2 polegadas, a verdade é que tudo funciona muito bem. O sistema é rápido e o grafismo é excelente, quer em qualidade, quer na originalidade com que se apresentam as informações. O painel de instrumentos é muito pequeno – 6 polegadas – mas a sua leitura é correta. Já o sítio destinado ao cartão-chave (sensor de abertura no retrovisor exterior) é, no mínimo, estranho, pois este deve ser depois colocado na zona de carregamento do smartphone.

Nos lugares traseiros, passageiros com 1,8 metros de altura podem contar com espaço para pernas apenas suficiente, sobrando pouco mais de um dedo de folga para o encosto do banco do condutor. Em altura, o espaço disponível é um pouco melhor. O lugar do meio é, como habitual, apenas para uma utilização pontual. Porém, onde o Firefly realmente se destaca é nos espaços de arrumação, dispondo de bolsas nas costas dos bancos, espaços nas portas e ainda um muito útil compartimento adicional debaixo do assento traseiro.


Tratando-se de um elétrico de tração traseira, a colocação do motor no eixo posterior retira alguma versatilidade à bagageira. Debaixo do piso não existem compartimentos, nem é possível criar um plano de carga totalmente plano com o rebatimento dos encostos dos lugares traseiros. Porém, mesmo sem o sentido prático de outras propostas, oferece ainda assim 404 litros de volume, expansíveis a cerca de 1.250 litros ao rebater-se totalmente o encosto. Todo este espaço é ainda complementado por um “frunk” de 92 litros ao qual não falta um ralo para escoar água após lavagem.
O Firefly é produzido sobre a plataforma FT1 e dispõe de uma configuração de suspensão independente às quatro rodas cujos benefícios são notórios logo nos primeiros quilómetros ao volante. Longe de ser um elétrico com posicionamento premium, transmite uma sensação de refinamento muito agradável a bordo. O amortecimento é, felizmente, brando, prescindindo de uma maior rigidez porque o Firefly pesa menos de 1.500 kg.

A posição de condução é elevada devido à presença da bateria e o volante, mesmo não sendo um círculo perfeito, não é desagradável de usar, permitindo usufruir de uma direção rápida, perfeita para as gincanas na cidade e que garante ótima brecagem para as rápidas inversões de marcha. Os pneus GitiSynergy e a total ausência de apoio lateral dos bancos destacam de imediato a postura pouco apressada do Firefly.
Estão disponíveis três modos de condução – Eco, Conforto e Desporto – bem como três níveis de intensidade de travagem regenerativa e ainda um modo One Pedal. O modo que ajusta automaticamente a energia recuperada nas desacelerações não funciona tão bem, por exemplo, como o dos elétricos do Grupo Volkswagen. A bateria do Firefly tem 41,2 kWh de capacidade e pode ser carregada a 7 kW numa wallbox ou até 100 kW num posto rápido DC.

Neste teste, maioritariamente realizado em ambiente citadino, o computador de bordo mostrou sempre consumos de energia entre os 11 e os 13 kWh/100 km. Com alguns percursos realizados em autoestrada, a média “resvalou” um pouco para lá dos 15 kWh/100 km, um valor que é, ainda assim, muito convincente nessas condições de circulação. O motor elétrico tem 143 cv e 200 Nm, permitindo acelerar de 0 a 100 km/h em 8,1 segundos. A velocidade máxima é de 150 km/h.

É certo que a cor branca não a destaca, mas o Firefly é um 100% elétrico que, esteticamente, tem bastante personalidade. O interior, embora visualmente minimalista, é acolhedor e bem equipado e em termos de funcionalidades, quer do ponto de vista da digitalização, quer no sentido prático, sente-se que é um produto ao qual foi dedicado tempo, com muito boa apresentação. Não é perfeito, mas dispõe de boas soluções para tornar o dia a dia mais fácil, como por exemplo a função V2L, o muito bom infotainment e imensos espaços para arrumar as “tralhas do quotidiano”.

Com uma autonomia real a rondar os 300 quilómetros, o Firefly talvez mereça uma bateria ligeiramente maior para reforçar a sua posição no segmento. Ganharia em alcance e o peso excedente em pouco ou quase nada interferiria no seu bom desempenho. Muitos argumentos num produto com uma apresentação igualmente muito convincente, proposto em Portugal em duas versões, Select por 30.900 euros ou este Comfort, topo de gama, por 32.490 euros.






