Sjoerd Knipping, COO da KIA na Europa: “Separar os veículos a combustão dos 100% elétricos com uma família dedicada de modelos. Porque precisamos de ambos.”
A KIA apresenta-se neste momento com uma das gamas mais completas do mercado, composta por 9 modelos a combustão, com ou sem eletrificação, e outros 8 modelos puramente elétricos, incluindo as variantes Cargo e Passenger do furgão PV5. De acordo com os dados da ACEA referentes ao primeiro semestre de 2026, a KIA conquistou a 9ª posição do mercado automóvel na Europa com um total de 290.697 veículos comercializados, mais 6,9% do que no período homólogo de 2025. Considerando a sua oferta atual, o plano de lançamentos previstos e os dados oficiais do mercado, é inegável o bom momento que a marca sul-coreana atravessa.

São assim muitos os pontos de interesse a explorar sobre a estratégia atual de produto e de crescimento da KIA na Europa. Por isso, por ocasião da apresentação internacional do novo KIA EV2, evento realizado em Lisboa, aproveitei a oportunidade para trocar algumas palavras com o responsável máximo pelas operações da KIA na Europa, Sjoerd Knipping. Do mais recente e pequeno EV da KIA às dificuldades enfrentadas pelos fabricantes na implementação da eletrificação, passando ainda pela tecnologia e prioridades para o futuro a curto e médio prazo, falou-se um pouco de tudo.
Como é que o EV2 se quer posicionar no mercado e quais os principais rivais identificados?
SK: “Estamos a desenvolver a nossa família EV dedicada para os segmentos inferiores e estamos a fazê-lo com um verdadeiro SUV, mas um que permite conquistar clientes de modelos clássicos hatchback, bem como captar outros clientes de um segmento acima, uma vez que a plataforma dedicada E-GMP lhe permite oferecer níveis de habitabilidade acima da média, graças, por exemplo, ao seu piso plano. O B- SUV é um dos segmentos que mais cresce e tem por isso uma importância significativa na estratégia da KIA na Europa. O EV2 é um pilar essencial para continuar o nosso percurso de democratização dos automóveis 100% elétricos e para conquistar um novo tipo de cliente. Em termos de concorrência, o novo Renault 4 é um rival direto em termos de dimensões, mas o mercado está muito ativo e vêm aí muitas novidades.”

O ritmo da eletrificação na Europa não avançou como esperado. Como é que a KIA vê a situação atual? Como se está a adaptar?
SK: “Há sensivelmente cinco anos quando entrei na KIA Europa, um pouco antes de lançarmos o nosso primeiro modelo da família 100% elétrica, o EV6, as previsões feitas com base nas opiniões de especialistas e nas expectativas dos fabricantes para 2025 antecipavam uma penetração dos automóveis elétricos muito superior à verificada atualmente. Este ano esperamos ter crescimento, mas ainda assim, abaixo das previsões. O facto de termos começado cedo com o EV6 e de estarmos a aumentar a nossa oferta gradualmente, e em cada vez mais segmentos, permite-nos antecipar o mercado. Esperamos até superar o próprio mercado em termos de eletrificação em 5 pontos percentuais. Para além disso, a eletrificação é muito variável de país para país. A sua adoção tem ritmos muito diferentes mesmo dentro de países membros da União Europeia. Portugal, por exemplo, está nos 25%, mas Espanha, um mercado muito maior, só agora está a chegar aos 10%. Depois temos os países nórdicos, bem acima dos 95%. É verdade que não está a ser tão rápido como queríamos, mas o nosso plano mantém-se: separar os veículos a combustão dos 100% elétricos com uma família dedicada de modelos. Porque precisamos de ambos.”
Quando questionado sobre a paridade de preços entre os modelos a combustão e os elétricos, Knipping não tem dúvidas: “Só existe paridade no caso de se aplicarem subsídios governamentais ou no caso de serem aplicados elevados impostos sobre os motores térmicos. Realisticamente, a paridade ainda não existe. Até porque o custo das baterias também ainda não baixou tanto como o esperado.”
Abordou-se ainda a possibilidade da KIA expandir a sua oferta elétrica ao segmento A recorrendo também à plataforma modular E-GMP. Porém, de momento, esse avanço não foi ainda confirmado. O COO da KIA da Europa reconhece que a “plataforma dá imensa liberdade de conceção, mas temos de esperar para ver como o mercado aceita o EV2 e logo veremos o que o futuro nos reserva.” No entanto, Knipping reconhece a importância do segmento A: “Atualmente, é uma categoria muito relevante para a KIA com o Picanto. Até porque muitas marcas estão a abandonar o segmento com modelos a combustão. De momento, temos uma resposta.”

Quanto à legislação futura e à possível implementação das normas que irão regular a produção de automóveis elétricos compactos na Europa, o responsável da KIA foi perentório: “O EV2 é o sexto modelo EV dedicado para além do PV5. A plataforma, repito, dá-nos esta liberdade. E com as atuais características do EV2, caso se confirme a nova legislação, a KIA antecipou-se uma vez mais ao mercado. Desenhado, desenvolvido e produzido na Europa para a Europa.”
Sendo o EV2 o modelo de entrada da gama elétrica, como equilibraram o custo final com a tecnologia disponível?
SK: “O que não podemos mesmo permitir é fazermos demasiadas concessões ao tentarmos convencer um cliente a adquirir um elétrico. E é, uma vez mais, a plataforma modular que nos permite esta abordagem. Por exemplo, no caso de um cliente de um veículo a combustão ou híbrido, ou um que conduza um elétrico sem plataforma dedicada e que queira agora fazer a evolução para um EV2, ele pode agora tirar proveito das sinergias de desenvolvimento de tecnologias dos nossos modelos maiores. A tecnologia já foi desenvolvida, por exemplo, para o EV6, e agora disponibilizamo-la no EV2. Não há necessidade de fazer cedências. Se já existe no EV5, EV4 e EV3, então passa para o EV2, soluções como o i-Pedal, por exemplo. Por outro lado, como não quisemos fazer quaisquer concessões, ter o preço mais baixo não foi o nosso foco principal. Se assim fosse, teríamos de ter “cortado” em alguma coisa. E como viram, o EV2 é um automóvel superior a um Inster, por exemplo. Apesar de ser o mais pequeno, é também o mais desenvolvido, pois tira proveito de todo o trabalho realizado previamente.”
O que vê como prioridade no futuro? Baterias mais eficientes e carregamento mais rápido ou a implementação da condução autónoma?
SK: “Até 2030, sem dúvida que a bateria e o carregamento serão mais importantes. Porém, nos cinco anos seguintes vamos assistir cada vez a mais testes de tecnologia de condução autónoma. Mas, para já, a autonomia elétrica e a velocidade de carregamento são essenciais. Atualmente, os condutores de elétricos que estão à procura de um novo automóvel tendem a procurar carregamentos mais rápidos porque sabem que a autonomia atual até já os serve e sabem, também, onde parar para carregar nas suas longas viagens. Os novos compradores, no entanto, procuram essencialmente maiores autonomias. Mas obviamente, não precisamos de autonomias de 1000 km. Diria que os 400 km ou um pouco mais são a referência atual para a maior parte dos compradores.”






