Yutong, o grande guerreiro elétrico chinês
Se a temática do futebol aqui na Garagem é usada apenas para determinados enquadramentos, já os veículos pesados, nomeadamente autocarros de passageiros, é algo que nunca por aqui antes estacionou. Hoje falamos da chinesa Yutong, marca que entrando de mansinho nesse segmento do transporte de pessoas, galgou lugares até ao topo, criando uma tempestade perfeita entre as marcas europeias que, até não há muito pouco tempo, dominavam essa vertente das vendas nacionais de veículos.
Recuemos a 2011, a um episódio que ficou nos anais do futebol português, protagonizado por Paulo Futre que, em apoio a uma das candidaturas à direção do Sporting Club de Portugal, afirmou, sob um determinado contexto, de contratação de um certo jogador chinês, que “vão vir charters de chineses!”, referindo-se ao facto de que, com essa decisão, Portugal seria invadido por turistas dessas paragens.

Quinze anos depois, ainda que o número de pessoas oriundas da China a residir oficialmente em Portugal esteja gradualmente a aumentar – segundo o INE serão hoje cerca de 23.000 oficiais; não oficialmente serão, decerto, muitos mais – não só não há um único nome sonante nos escalões superiores do futebol nacional, como também (ainda) não temos aviões “Made in China” no nosso mercado.
Já no que se refere a autocarros de passageiros chineses há-os e cada vez mais, muitos mesmo e com diferentes logótipos, tantos que as marcas europeias que, em tempos, dominavam esse setor estão hoje a fazer contas para tentar dar a volta ao tema, nomeadamente a um problema chamado Yutong.
Se nos automóveis a coisa evolui, nos autocarros já está noutro patamar
É por demais sabido que as marcas chinesas invadiram o mercado de automóveis de passageiros, que antes tinha propostas europeias, norte-americanas, japonesas e, mais tarde, sul-coreanas. Mas eis que, de repente, as tabelas da ACAP passaram a apresentar mais de duas dezenas e meia de marcas automóveis, a maioria de sonoridade até há pouco tempo desconhecida (e estranha) aos ouvidos do consumidor português.


Por ordem alfabética temos hoje Aion, Aiways, BYD (ou Build Your Dreams), Changan, DFSK (DongFeng Sokon), DongFeng, Farizon, Forthing, Foton, GAC (Guangzhou Automobile Company), Geely, Jaecoo, Leapmotor, Maxus, Neta, NIO, Omoda, Radar, Seres, Victory, Voyah, XPENG e Zeekr. Há ainda outras que já foram 100% europeias e que, por força das circunstâncias – leia-se necessidades de sobrevivência / injeções de capital – foram adquiridas e integradas em portentos industriais chineses, casos da MG (Morris Garage), Lotus, Polestar, Smart e Volvo.
Todas lutam para subir nos rankings de vendas, algo que está a ser alcançado gradualmente a cada mês que passa, garantindo-se quotas de mercado cada vez mais robustas e que, no seu conjunto, tendo em conta os volumes de vendas a julho de 2026 há dias anunciados pela ACAP, já atingem os9,3% no setor dos automóveis de passageiros (14.423 matrículas), numcrescimento face a 2025 de 122,8%, ou seja, mais do dobro do que há um ano por esta altura.



Mas se nesse setor essas marcas ainda batalham por essas conquistas de terreno, nos veículos pesados, nomeadamente nos autocarros de passageiros, uma já é dona e senhora do segmento. Chama-se Yutong e entrando de mansinho em 2025, fechou o ano no 3º lugar das vendas, com 125 unidades e 11,6% de quota, atrás da Mercedes-Benz (190; 17,6%) e da IVECO /164; 15,1%). Este ano decidiu abrir o livro e, entrando de rompante, lidera confortavelmente o mercado com uma já muito substancial quota de 23% (275 matrículas nos sete meses agora cumpridos, ou seja, mais do que duplicando o volume do ano todo de 2025.
A Mercedes-Benz caiu para 2.º, com uma fatia de 9,5% (101 unidades), seguindo-se a também chinesa Oceantia (94; 8,8%), a turca Karsan (73; 6,9%) e a MAN (70; 6,6%), vindo depois marcas como a DAF, IVECO Bus, Caetano Bus, Scania e Volvo que, isoladamente ou associadas a diferentes carroçadores, dividem os despojos de uma guerra comercial que não lhes está a sair nada bem, batalhando com pelo menos uma dezena de outras marcas também oriundas da China.
O mesmo se passa na crescente vertente BEV, em que os autocarros Yutong se sentem como carpas no Rio Yangtzé, já tendo para si, uns bem mais impressionantes 40% do mercado de 2026, bem à frente das rivais Oceantia (14,5%) e Karsan (11,2%). Quanto às europeias… pois!
A nível da Europa e de acordo com a ACEA, o setor está hiperdinâmico, numa batalha que se faz a quatro, entre a chinesa Yutong, a polaca Solaris, a neerlandesa MAN Truck & Bus e a italiana IVECO Bus. Se no domínio EV a marca chinesa de autocarros é já quase dona do pedaço, no conjunto das soluções de mobilidade (EV, Diesel, hidrogénio, etc.) mantém-se a total indefinição sobre quem irá fechar o ano à frente da tabela de vendas desta tipologia de veículos.
A comercialmente atrativa oferta da Yutong em Portugal
E o que têm estes autocarros de diferente dos demais? Primeiro são elétricos, tema a que as operadoras, privadas e do Estado, se veem cada vez associadas, para o cumprimento das metas ambientais e de sustentabilidade exigidas pelas diferente urbes e organismos; depois, porque, à semelhança do que se passa no setor dos automóveis, a Yutong tem atrativas práticas para o mercado B2B, com preços que a maioria não consegue acompanhar.


Integrada no grupo Zhengzhou Yutong Group Co., Ltd. com sede e principal base de fabrico em Zhengzhou, na província chinesa de Henan, a Yutong é já presença assídua nas frotas de transportes de diferentes localidades, de norte a sul do país, com destaque para Guimarães, urbe que adquiriu diretamente 50 autocarros elétricos desta marca para eletrificação total da sua rede urbana. Outros, como as operações das frotas da Carris Metropolitana, misturam-nos com as atuais unidades de outras marcas (térmicas e elétricas), casos se muitos municípios das regiões da Grande Lisboa, processo que se estende aos diferentes operadores do Grande Porto e de Braga, lista que cresce a cada mês.
O catálogo da Yutong integra várias propostas elétricas a bateria, de 5 a 18 m de comprimento, para entre 38 e 55 passageiros, permitindo-lhe ir ao encontro das diferentes necessidades das cidades, em meio urbano e periurbano, como até para as viagens maiores por autoestrada.


Os mais populares são o pequeno E8 (8,4 m) e o um pouco maior U10 (10 m), para transporte de 70 e 81 passageiros, respetivamente, sentados e/ou em pé, valores praticamente equivalentes aos anteriores veículos de motores térmicos, mas aqui com custos de operação substancialmente mais baixos e uma maior mobilidade dentro das localidades. O E8 usa um motor elétrico de 120 kW ou 240 kW para um binário de 1.400 Nm, acelerando dos 0 aos 50 km/h em menos de 15 segundos, apoiado por uma bateria de elevada performance do tipo LFP que lhe dá uma autonomia de até 220 km (completo em lotação e com AC ligado) ou de até aos 340 km (metade da ocupação e AC desligado). Já o U10 tem um motor EV do tipo flat-wire com elevada eficiência (cerca de 97,7%) e uma bateria LFP com uma capacidade de até 435 kWh, permitindo-lhe uma autonomia de cerca de 500 km em condições reais de operação.
Há ainda os autocarros elétricos de turismo T12, mais tradicionais, e T12E, de luxo, ambos de 12 m, para um máximo de 55 passageiros, tendo uma autonomia ultralonga que pode atingir os 600 km, fruto das suas baterias de 465 kWh de carregamento ultrarrápido, em apenas 1,2 horas, num catálogo que se alarga a outras propostas similares, de variados comprimentos, capacidades, número de eixos e autonomias, para além de pequenos furgões comerciais V6, V6-Cargo e V6E.
Por isso, se ao apanhar um destes transportes públicos urbanos entrar num Yutong, não estranhe! Como disse, em tempos, um tal de Jorge Jesus, entretanto anunciado como novo Selecionador Nacional, “eles andem aí!”






