O Giulia não está melhor, está igual ao que sempre foi. Com classe, numa classe à parte
É-me quase impossível iniciar a escrita de um artigo sobre a experiência de condução de um Alfa Romeo Giulia, um texto que à partida deveria ser racional e objetivo, um verdadeiro ensaio ao produto, sabendo de antemão que rapidamente as linhas de texto que se queriam informativas e objetivas se vão transformar em algo completamente diferente. Já da última vez que conduzi um Giulia, o sintoma foi exatamente este e a consequência foi, mais do que um teste, uma quase declaração de amor ao Giulia. Lamento, mas é mais forte do que eu. Até porque não preciso de falar do automóvel. O automóvel fala por si.


O Giulia é uma berlina desportiva, algo que se lê de imediato nas suas linhas elegantes, mas igualmente na forma subtil como se posiciona em estrada, como responde aos pedidos do seu condutor, num diálogo que se torna cada vez mais interessante e bem correspondido à medida que a viagem se torna mais exigente, com curvas que convidam a estender a conversa entre homem e máquina ao mais longínquo dos destinos. Uma conversa natural, fluída, plena de conteúdo e rica em detalhe, recompensadora para ambas as partes. As melhores, portanto.


Gosto de automóveis pretos, mas reconheço que, na maior parte das vezes, a total absorção da luz desvanece o trabalho da equipa de design. No Giulia não. A classe que tanto me apela está lá toda, seja qual for a cor da pintura. Não precisa de exageros para se destacar, nem de contrastes visuais para compensar o cinzentismo do anonimato estético que tanto domina o setor hoje em dia. O Giulia sabe ser desportivo, mas lá está, tem classe. Cativa, faz-se notar, mas na dose certa. Também as pessoas mais interessantes são assim. Quase nunca a mais faladora e audível, quase sempre a mais discreta. Com os temas de conversa mais estimulantes e mais sustentados, com opinião formada e com personalidade.
Contando já com mais de dez anos de mercado, o Giulia não dispõe de muitas das mordomias atuais, muitas delas inúteis, pesadas, dispendiosas de adquirir e, eventualmente, de reparar, porque é um produto de outra geração. Melhor para ele. Pois isso, para mim, faz da berlina da Alfa, mesmo esquecendo a beleza da sua carroçaria e a pureza técnica do seu chassis, um automóvel absolutamente perfeito. Um que vive agora numa era em que a beleza do desenvolvimento de uma elaborada geometria de suspensão perdeu valor e significado perante o número de operações por segundo dos muitos processadores dos automóveis atuais.


Terão os automóveis evoluído assim tanto? Considerando que uma das minhas referências em 2026 tem mais de dez anos de vida, algo na indústria não está então a correr bem. Pelo menos para quem gosta de automóveis com personalidade, daqueles que nos fazem sentir bem, especiais e bem recebidos, que sabem dar uma resposta à altura do desafio dinâmico que lhe propomos. Não conheço tudo, mas do que conheço, de 2015 até aos dias de hoje, nada se aproxima do carácter, da emoção e do dinamismo, até mesmo estático, de um Giulia.


Seria fácil dizer que, tal como o Vinho do Porto, o Alfa Romeo Giulia está cada vez melhor com o passar dos anos. Mas não. O Giulia é diferente. Mais do que um automóvel experiente ou evoluído, é um automóvel bem-nascido, um que está, em muitos aspetos, mais de dez anos depois, com a classe que se lhe reconhece, numa classe à parte. Está tão bom como sempre foi e a evolução, inequívoca, mas muitas vezes algo desapaixonada dos automóveis modernos, só destacou ainda mais o seu brilhantismo.






