Ensaio Total: DS Nº8 Étoile AWD Long Range
O DS Nº8, o novo 100% elétrico porta-estandarte da DS Automobiles, chegou ao mercado com uma enorme responsabilidade. Por um lado, precisa de conquistar o seu espaço num segmento difícil de entrar, onde marcas mais históricas e com mais reputação dominam as vendas e fazê-lo, também, propondo, em exclusivo, motorizações alimentadas a bateria.
Por outro lado, o topo de gama da marca premium da Stellantis precisa de dar continuidade a uma linhagem de modelos históricos absolutamente genial, quer do ponto de vista estético, quer da inovação, requinte e conforto a bordo, homenageando o legado iniciado pelo Citroën DS em 1955, e prolongado, posteriormente, pelos igualmente emblemáticos CX, XM e C6.

Irreverência estética, dimensão e detalhe estilístico não lhe faltam, vertentes que se combinam para fazer do Nº8 um automóvel com imensa presença e personalidade. Com 4,82 metros de comprimento, uma distância entre eixos de 2,9 metros e com a bonita configuração deste Étoile AWD – que inclui as jantes de 21 polegadas – o Nº8 não passa despercebido.

Um excelente sítio para se estar. E viajar
Passando à avaliação do interior, é-me impossível não começar por destacar o elevadíssimo conforto dos bancos dianteiros, com funções de aquecimento, ventilação e massagem, bem como com ajuste pneumático do suporte lateral. O volante é outro elemento do habitáculo que salta de imediato à vista. Porém, apesar do seu aspeto curioso, não resulta desagradável durante a condução. As pegas da porta, escondidas pelas colunas de som, são também originais, mas estão tão à frente, junto da dobradiça, que exigem desnecessariamente um esforço maior do que o habitual para se fechar a porta.

No que diz respeito a materiais, as “notícias” também podiam ser um pouco melhores, principalmente se considerarmos as aspirações premium (justificadíssimas) do Nº8. Estes são, na sua maioria, de boa qualidade e o que não falta ao grande DS são acabamentos com uma elevada atenção ao detalhe. Porém, os materiais de qualidade inferior que normalmente encontramos nos lugares mais escondidos, são aqui idênticos aos de outros modelos do grupo, de segmento e posicionamento inferiores, algo que não apreciei.

A bateria, sempre a bateria
Aceder ao banco traseiro é, como seria de esperar com portas grandes e uma boa distância entre eixos, um exercício fácil. No entanto, nos lugares traseiros, apesar do bom espaço disponível e do correto ângulo entre o assento e o encosto do banco, a verdade é que o piso alto (devido à bateria ali colocada) obriga a viajar com os joelhos muito elevados, retirando suporte às pernas. Os bancos traseiros contam igualmente com funções de aquecimento e ventilação e a temperatura da climatização pode também ser regulada independentemente.

A bagageira dispõe de 620 litros de capacidade, um valor referencial que resulta da sua largura e profundidade, uma vez que, em altura, o espaço pareceu-me algo limitado. Debaixo do piso não há também muito espaço disponível, pelo que guardar por ali os volumosos cabos de carregamento não deverá ser uma tarefa fácil. No interior, destaco ainda dois elementos de conforto de que todos os ocupantes podem desfrutar: o sistema de som Electra 3D da Focal e o enorme tejadilho panorâmico.

Serenidade acima de tudo
Ao volante, ainda que instalado num autêntico “sofá”, achei a posição de condução exageradamente alta, o preço a pagar, uma vez mais, pela presença da enorme bateria. Tratando-se da versão AWD, equipada com dois motores, um por cada eixo, o Nº8 dispõe da bateria Long Range da gama, com 97,2 kWh, com a qual a DS diz ser possível usufruir de uma autonomia máxima em ciclo combinado de 688 km. Considerando que o “meu” Nº8 está recheado de equipamento e “vestido” com as maiores jantes disponíveis, não estranhei que a autonomia real se tivesse ficado pelos 540 quilómetros.

A média final de 18,1 kWh/100 km foi conseguida com recurso ao modo de condução Eco e, em ambiente citadino, tirando também proveito da útil função One Pedal. Estão igualmente disponíveis três níveis de intensidade de regeneração de energia e quatro modos de condução adicionais: Conforto, Normal, Desportivo e AWD. No modo Desportivo, graças aos 350 cv de potência e mais de 500 Nm de binário, o Nº8 impressiona pela forma como ganha velocidade, quase fazendo esquecer os quase 2.300 kg que pesa.

Conforto “à medida”
Graças à suspensão ativa, o amortecimento do Nº8 adapta-se em tempo real às condições do piso garantindo-lhe uma capacidade de absorção que, em teoria, será sempre a ideal dentro daquilo que são os limites de atuação da suspensão. E a verdade é que o efeito “tapete voador” é notório, principalmente ao filtrar as baixas frequências, fazendo da experiência a bordo algo verdadeiramente relaxante e que convida a viajar. Já quando o piso se torna mais degradado, a “magia” da suspensão não é tão óbvia.

Subindo-se o ritmo e atirando a grande berlina da DS para uma estrada com curvas, cenário que está longe de ser o seu preferido, o Nº8 surpreende até com mais agilidade do que esperava de um elétrico com este posicionamento. Porém, forçando-se os limites, o peso elevado e a sua natureza mais serena rapidamente convidam a reduzir o andamento. Os 190 km/h de velocidade máxima parecem-me muito adequados (para um condutor em algumas autoestradas na Alemanha), mas os 5,4 segundos gastos para acelerar de 0 a 100 km/h parecem-me desnecessários.

A melhor versão do DS Nº8?
Considerando que a gama inclui duas outras versões de performance mais comedida, com apenas tração dianteira, estas parecem-me, à partida (a não ser que a tração integral deste topo de gama seja condição obrigatória), as melhores da gama. A variante de acesso tem 230 cv e uma bateria de 73,7 kWh e a intermédia tem 245 cv e a “mesma” bateria deste AWD, garantindo, respetivamente, 550 e 750 km de autonomia, sendo ainda, obviamente, mais baratas. Considerando o nível de equipamento Étoile, o Nº8 FWD 230 cv custa 65.000 euros, o FWD 245 cv Long Range custa 71.100 euros e este “todo-poderoso” AWD Long Range 350 cv “atira-se” para os 75.600 euros.

As qualidades do Nº8 são indiscutíveis. Aprecio o seu estilo elegante e diferenciador, ainda que com proporções algo estranhas, bem como o interior acolhedor com os materiais de diferentes texturas e cores a contribuírem para uma essencial sensação elaborada e requintada a bordo. Mesmo com alguns aspetos a melhorar, o Nº8 é, por dentro e por fora, um automóvel pleno de personalidade, requintado e cujo foco no conforto é inquestionável, aspetos que deixariam os seus antecessores da Citroën muito orgulhosos.






