Ensaio Total: Renault Twingo E-Tech Elétrico
Com a chegada ao mercado de um automóvel como o novo Renault Twingo, chegou também, a meu ver, a altura de falar de um tema pouco discutido (e valorizado) no mundo dos elétricos: o consumo de energia. Sempre senti que para o defensor acérrimo do automóvel elétrico, a média de consumo de energia pouca importância tem. Porque basta-lhe carregar a bateria no conforto da sua garagem particular, com um preço, felizmente, apetecível. É legítimo que assim seja, mas apenas até certo ponto.

Isto porque a média de consumo importa, e muito. O facto de o carro não ter emissões locais – pelo menos do escape, porque não o tem – não significa que não polua. Existem energias renováveis, cada vez mais, mas também existem as não renováveis, pelo que as emissões acontecem, mesmo que não seja em circulação. Assim, gastar 20 ou 25 kWh/100 km de energia é um número muito diferente do consumo real absolutamente inacreditável deste Twingo.

Se a ideia é poupar o ambiente, que se poupe a sério e que se tire proveito, cada vez mais, da inequívoca evolução do automóvel elétrico. Com modelos eficientes como este, com dimensão adequada às cidades e preço também mais acessível do que o normal, a total eletrificação do automóvel só agora se está a tornar verdadeiramente interessante. Pelo menos para mim, que não entendo o conceito de um SUV elétrico de 1000 cv com acelerações de 2,5 segundos dos 0 aos 100 km/h. É tão útil como ter uma dor de dentes todas as semanas.
Design exterior
Visualmente está, como se costuma dizer, no ponto. Goste-se ou não do design da primeira geração do Twingo, a Renault continua, e bem, a apostar na reinvenção de modelos icónicos para a era da eletrificação. Comprar um Twingo preto como este é que é, sem dúvida, um erro, “matando” contrastes e convidando as bem reinterpretadas linhas da carroçaria ao anonimato estético, o que é uma pena. O vermelho não se paga e se for para pagar, que seja pelo amarelo ou pelo verde. Ao contrário da geração original, o novo Twingo aposta numa carroçaria de quatro portas, uma evolução bem-vinda, beneficiando o conforto e versatilidade de utilização no dia a dia. Neste Evolution, as jantes são de 16 polegadas e contam com uns originais tampões com imensos losangos, o símbolo da Renault.


Habitáculo
Se esperas desfrutar de materiais macios no interior do Twingo, lamento, mas não os vais encontrar. Os plásticos são rijos, como seria de esperar, uma solução perfeitamente alinhada com a abordagem do Twingo, que pretende assumir-se como um dos elétricos mais baratos do mercado. Nem teria a mesma graça se assim não fosse. Espaços de arrumação não faltam, seja nas portas da frente, no porta-luvas e entre os bancos dianteiros, existindo ainda uma zona na consola que é ideal para colocar o smartphone. O painel de instrumentos digital tem um grafismo muito apelativo e claro e o ecrã tátil central garante a indispensável conectividade e muita informação sobre a eficiência da condução.

O espaço atrás não é abundante, mas considerando as dimensões exteriores do Twingo – 3,79 metros de comprimento e 2,49 m de distância entre eixos – pode dizer-se que os centímetros estão muito bem aproveitados, permitindo que dois adultos de estatura média possam ali viajar com algum conforto. No entanto, o piso é elevado e obriga a que os joelhos permaneçam demasiado altos. Os vidros contam apenas com abertura lateral, mas até reconheço alguma “piada” à solução, remetendo para outros tempos. Espaços de arrumação atrás, só um pequeno compartimento de cada lado, entre o banco e a porta.


A capacidade da bagageira é variável, uma vez que os dois bancos traseiros contam com regulação longitudinal individual, o que garante uma grande versatilidade de utilização do espaço interior consoante as necessidades. O volume disponível varia assim entre os 205 e os 305 litros, sendo ainda possível rebater os encostos dos bancos e desfrutar de 966 litros de espaço de carga. Debaixo do piso da bagageira existe ainda espaço adicional, útil para arrumar os cabos de carregamento ou “esconder” algum objeto, uma vez que o Twingo não tem chapeleira.
Ao volante
Começo por elogiar a posição de condução. Para um automóvel tão compacto e equipado com uma bateria elétrica debaixo do piso, a Renault fez um excelente trabalho ao permitir que o condutor não se sinta numa posição exageradamente alta no habitáculo, sendo possível regular o banco para uma configuração que me pareceu suficientemente baixa para quem assim o aprecia. Já o passageiro da frente viaja “mais acima”.

O comando da transmissão está colocado, como é hábito na Renault, na coluna da direção e o botão para ativar e desativar o travão de estacionamento está posicionado na zona inferior da consola. Os comandos da climatização são simples botões rotativos e de pressão, ou seja, perfeitos. Do lado esquerdo do volante, na pequena fileira de botões, está o Modo Eco e o muito útil atalho para uma configuração personalizada dos assistentes de condução. Neste aspeto, fiquei com a sensação de que o assistente de travagem é excessivamente nervoso, ativando por vezes os travões sem qualquer necessidade. Também estranhei a ausência do cartão Renault, pois o Twingo elétrico, nesta versão de entrada, “acorda” com uma chave convencional.
Consumos surpreendentes
O Twingo E-Tech está equipado com um motor de 82 cv e 175 Nm, associado ao eixo dianteiro, bem como com uma bateria LFP de 27,5 kWh, a qual pode ser carregada a 11 kW num ponto de energia AC ou até 50 kW através de um posto rápido. Com esta combinação, que garante um peso de apenas 1275 kg, o Twingo teve um desempenho absolutamente brilhante em ambiente citadino, o seu palco de eleição e onde foi possível manter o computador de bordo a mostrar uma média de 9 kWh/100 km de forma regular. Nem a curiosa escolha de pneus Goodyear “all season” de medida 195/60 desta unidade em particular prejudicou a eficiência. Se prejudicou, não o senti e o consumo seria assim ainda mais baixo.


Com estes números, também não podem ser exigidas ao Twingo as acelerações fulminantes (em certos casos desnecessárias, volto a dizer) típicas dos elétricos mais potentes, mas os 12,1 segundos de que precisa para acelerar de 0 a 100 km/h colocam-no num patamar de performance mais do que ajustado ao dia-a-dia. E se for preciso levar o Twingo à autoestrada, os 130 km/h de velocidade máxima garantem-lhe andamento suficiente para acompanhar o resto do tráfego nos raros dias em que é possível atingir os 120 km/h, por exemplo, na “infernal” A5.
A Renault declara uma autonomia em ciclo combinado de 264 quilómetros, um número que me parece perfeitamente possível de atingir. Porém, foquei-me na utilização citadina, onde os novos Twingo vão passar mais tempo e aí, com a média registada neste teste, a autonomia facilmente atingirá os 300 quilómetros. Não está disponível um modo “one pedal” que permita conduzir com recurso em exclusivo ao acelerador, mas o modo B, selecionável através do manípulo atrás do volante, garante uma maior dose de recuperação de energia, desacelerando o Twingo com mais convicção, bom para usar em cidade.
Ágil e confortável
O facto de ser um elétrico compacto não obriga à utilização de uma bateria de grandes dimensões e, assim, o Twingo é, para os padrões atuais, um automóvel leve. E essa leveza, que permite estes valores referenciais em termos de eficiência – aos quais a experiência da Renault com a tecnologia também não é alheia – traz consigo outro benefício, o do desempenho dinâmico. Não sendo pesado, não há muita massa para controlar e por isso a suspensão não precisa de ser mais firme do que o habitual para manter as “coisas no sítio”.


O Twingo mostrou-se assim um elétrico bastante confortável, pelo menos este Evolution com jantes mais pequenas e com pneus com mais perfil do que o mais recheado Techno, que pode contar com jantes de 18”. E quando chegam as curvas, não desilude, mostrando-se ágil, com reações rápidas e seguras. Sente-se a ligeireza do conjunto e isso beneficia a experiência em variadíssimos aspetos. Ainda no que à condução diz respeito, é preciso elogiar a sensação transmitida pelo pedal de travão, com uma consistência e firmeza pouco comum nos elétricos, mesmo em produtos de segmento superior.
Twingo disponível a partir de 19.490 euros
A Renault propõe o novo Twingo por uns muito apetecíveis 19.490 euros, posicionando-o num dos segmentos onde a oferta 100% elétrica, felizmente, mais tem crescido. E fá-lo com um produto cheio de argumentos, começando pelo design que reinterpreta de forma moderna um dos seus mais icónicos modelos, cativando os clientes jovens, mas também os menos jovens. Para além disso, conta com um interior espaçoso para quatro passageiros e onde a boa versatilidade também lhe vale pontos, é divertido de conduzir e, acima de tudo, permite uma utilização verdadeiramente eficiente, com médias de consumo muito baixas.


Em termos da total eletrificação do automóvel, no difícil contexto atual, é este o caminho a seguir, com produtos eficientes, compactos e acessíveis. Só assim se poupam recursos, acelerando-se também a redução das emissões e da poluição, só assim se reduzem os níveis de congestionamento nas cidades, com lugares de estacionamento que não crescem em número, nem em dimensão e só assim é possível convencer um maior número de clientes a fazer a transição da combustão para a eletricidade. O Twingo, e outros antes dele, já mostraram como se faz. Mas o pequeno Renault, é preciso dizê-lo, foi talvez o modelo que melhor o fez.






