Ensaio Total: Renault Clio 1.2 TCe EDC Esprit Alpine
O novo Clio, nesta que é a sexta geração da sua bem-sucedida história de 35 anos, era, para mim, um dos recentes lançamentos que com mais interesse aguardava poder testar. Não só pela importância que o utilitário da Renault tem no mercado nacional, mas também por ter vindo a estabelecer referências no seu segmento ao longo destas últimas três décadas e meia.

Visualmente impactante, principalmente se “vestido a rigor” com uma cor forte que destaque as múltiplas superfícies vincadas da carroçaria e acentue o contraste com os elementos a preto, o novo Clio deu nas vistas e foi alvo de imensos olhares indiscretos e até alguns “piropos” durante este ensaio. Tratando-se da versão Esprit Alpine, com jantes de 18 polegadas, dá ainda mais nas vistas.
Por fora está completamente diferente
A autêntica revolução aplicada no exterior, onde o Clio cresceu em todas as direções, inclusivamente na distância entre-eixos, estende-se igualmente ao habitáculo. O design do tablier destaca-se agora por uma maior horizontalidade, posição em que a Renault colocou agora o ecrã do sistema de infotainment, rodado em 90 graus relativamente à geração anterior. Este destaca-se, como é hábito nos modelos da marca francesa, pelo ótimo grafismo, boa arrumação de menus e funcionamento fluído e intuitivo.


O painel de instrumentos é também totalmente digital e dispõe de vários modos de apresentação, sendo possível ali reproduzir, por exemplo, a navegação. O volante não é um círculo perfeito, mas dentro do género, não resulta particularmente desagradável nas mãos. Nesta versão, com a nova caixa automática, dispõe de patilhas. Na coluna de direção surge também o seletor da transmissão, como é hábito na Renault. Os comandos físicos da climatização são um exemplo de funcionalidade, mas os rotativos anteriormente utilizados eram ainda melhores.
Por dentro
A qualidade dos materiais, de uma maneira geral, regrediu relativamente à geração precedente. Sim, neste topo de gama alguns deles são forrados a camurça, mas todos os plásticos são duros e pouco agradáveis ao toque. É a tendência do segmento, uma vez que os clientes valorizam mais elementos como a digitalização e conectividade, o que é legítimo. Porém, esperava um pouco mais do Clio, principalmente pelas bem melhores sensações que o anterior transmitia neste aspeto.


Os bancos são ótimos. Bonitos, confortáveis e com suporte adequado – mas não exagerado – às capacidades do chassis. Atrás, o nível de conforto também convenceu. O espaço não é referencial nesta categoria de mercado, mas dois adultos viajam com um nível de conforto mais do que aceitável graças a um assento e encosto bem desenhados. A bagageira dispõe de 391 litros de volume útil e, para minha surpresa, esconde-se debaixo do piso um pneu suplente.
Ao volante
A posição de condução é muito boa, não só graças aos bons bancos já mencionados, mas também por nos podermos sentar “dentro” do habitáculo e não “em cima”, baixos, perfeitamente alinhados com pedais e volante. A visibilidade para trás é, porém, algo limitada pelo vidro posterior inclinado. Dinamicamente, o Clio continua a ser um dos melhores do segmento. Com a saída de cena do Fiesta, talvez só o Ibiza lhe faça frente, mas à custa de uma maior dureza de amortecimento, da qual o Clio prescinde.


Apesar da muita agilidade e do comportamento divertido, o Clio mostrou-se igualmente muito confortável, comprovando (outra vez) como a Renault sabe como ninguém afinar de forma muito equilibrada os seus automóveis. O Clio é, muito provavelmente, mesmo com estes pneus 205/45, de baixo perfil, um dos mais refinados modelos do seu segmento.
Mais pulmão
O Clio trocou o motor 1.0 TCe por este evoluído 1.2 litros, igualmente com três cilindros e também sobrealimentado por turbocompressor, que entrega 115 cv e 190 Nm às rodas da frente, nesta unidade, através de uma transmissão automática de dupla embraiagem de 6 velocidades. Globalmente mais refinado que o seu antecessor, o novo 1.2 TCe mostra-se surpreendentemente enérgico, dando ao Clio um andamento que chega e sobra para divertir. Subi com ele a Rampa da Falperra e confirmei-o.

A caixa de velocidades não é particularmente rápida, principalmente nas reduções exigidas na patilha esquerda no volante, mas a verdade é que também não tem que o ser. Por vezes prolonga também demasiado o tempo até passar à relação seguinte, levando o motor a respirar acima do que seria normalmente expectável, mas nada de “grave”. A ritmo de autoestrada, com uma 6ª relação que coloca as rotações na casa das 2500 rpm no limite legal de velocidade, esta ajuda os consumos a “virem para baixo”.
Bom estradista
Percorri mais de 850 quilómetros em apenas dois dias, com cerca de 70 a 80% em autoestrada, e o computador mostrava uma convincente média final de 5,3 l/100 km no regresso a casa. Recordo, com alguns percursos urbanos – e a Falperra – pelo meio. Apreciei bastante o novo modo de condução Smart, que alterna automaticamente entre os personalizáveis Eco, Comfort e Sport consoante as condições e perfil de condução. Para mim é a solução ideal, bem melhor que uma exagerada multiplicidade de opções.
Clio ainda é sinónimo de referência do segmento?
Apesar das inúmeras soluções estéticas aplicadas, o novo Clio, pelo menos aos meus olhos, é um dos mais apelativos automóveis da sua categoria de mercado. E ao volante, surpreendeu por revelar algumas capacidades dignas de segmento acima, com um refinamento e conforto a bordo que se mostraram indicados para uma viagem de fim de semana em família. A caixa EDC, não sendo exemplar no seu funcionamento, contribuiu para este algo inesperado bom desempenho estradista, num modelo maioritariamente pensado para as cidades.

É verdade que a geração anterior era ainda uma referência de mercado, mas a evolução é óbvia e o Clio está melhor do que nunca. Sim, aderiu à tendência de cortar na qualidade aparente dos materiais do habitáculo, mas o Clio tem “mais motor”, uma nova opção de transmissão automática e continua a posicionar-se entre os melhores no que diz respeito às capacidades do chassis, reforçando-se ainda em termos de digitalização. Os preços iniciam-se nos 21.990 euros, mas este belíssimo Esprit Alpine, topo de gama, com caixa EDC, custa 29.882 euros.






