Ter carro é um luxo, nem que seja um velho
Sei que o ano de 1985 foi há mais de 40 anos e que, por isso, já olho de maneira diferente para as coisas, principalmente para os automóveis que desde cedo me entusiasmam. Sei apreciar a evolução e gosto de alguma da tecnologia moderna, mas a verdade é que os automóveis atuais, mais seguros e eficientes, estão também desnecessariamente complicados de utilizar e, imagino, nos próximos anos, de manter. Infelizmente, cada vez mais, pelo menos no que diz respeito a manutenção, esse problema não é exclusivo dos automóveis novos.
Existem sinais de que a regulamentação abrandará para os futuros automóveis urbanos, reduzindo custos de produção e, consequentemente, de aquisição. Mas até lá, resta-nos esta complexa e dispendiosa atualidade em que os carros novos são montras tecnológicas carregadas de sistemas e assistentes, os quais, cada vez mais, nos podem dar as boas-vindas matinais com um belo “ecrã azul” que, silenciosamente, nos encaminha para a paragem de autocarro mais próxima. As trocas de óleo e respetivo filtro são agora atualizações de software e o aperto dos parafusos com chave “Torx” é agora feito com um computador “over the air”, implementada por um técnico de bata branca e não por um tipo de fato-macaco.


Mas os carros “velhos” também já não se mantêm na estrada com uma pontual reparação de 100 euros e com um “bacalhau temperado” com óleo Castrol a rematar a conta. Esses tempos já lá vão. Basicamente, as oficinas dos concessionários pedem o que querem. Sei que tudo está mais caro, mas não me venham dizer que a guerra é a culpada de uma revisão, troca de embraiagem e da corrente de distribuição custar 5100 euros num compacto familiar, a gasolina, com 10 anos. Ou que é aceitável mudar velas, óleo e filtros por 650 euros mais IVA. Mesmo estas revisões, as de sempre, com mão de obra especializada, mas sem termos como “conectividade”, “digitalização” ou “o sistema está a reiniciar”, são agora cobradas a preço de roubo. Não há outra forma de o dizer.
Também nos dizem que os elétricos não têm manutenção, mas quem nisso acreditar, mais vale comprar uma bicicleta ou uns bons ténis de caminhada. Poupa o ambiente, faz exercício e a manutenção resume-se a WD40 na corrente e, talvez, um pouco, nos joelhos. Resumidamente, manter um carro antigo em funcionamento é caro. E comprar um novo é caro. Já reparar um carro novo é, muitas vezes, estou seguro disso, só impossível. Ou, pelo menos, desconfio que assim venha a ser. A velha máxima diz-nos que, em tudo na vida, é, pontualmente, preciso dar um passo atrás para se darem dois em frente. Neste caso, e quem o diz é o próprio mercado e os órgãos reguladores, deu-se um passo demasiado grande para a frente, pelo que, recuar, torna-se inevitável e urgente.


Este nosso património rolante, cada vez mais dependente da especialização de reparadores oficiais, atravessa atualmente um momento em muito idêntico ao do setor imobiliário, com o qual se parece ter contagiado. Aquele “pequeno T2” com que todos sonhamos é caro porque se localiza em “zona sossegada, com espaços verdes e a 200 metros da praia”. Mas o outro T2, em zona barulhenta, com espaços cinzentos e a 200 quilómetros da praia, também é caro porque tem bons acessos a autoestradas e uma caixa multibanco a apenas 10 minutos a pé. É caro porque é perto, é caro porque é longe. É caro porque é novo e é caro porque é velho. Especulação pura, inflação de preços injustificada, roubo descarado.
As pessoas não têm dinheiro para automóveis complexos. As pessoas querem, isso sim, soluções. É urgente descomplicar regulamentações. É por isso que uma futura classe de veículos elétricos acessíveis e compactos é prioritária. Sim, ficamos todos (menos eu) impressionados com o ecrã tátil que no model year 2026 ganhou uma polegada e, imagine-se, até posso falar com o carro e pedir-lhe para abrir a janela porque, epá!, pressionar um botão é coisa do passado. Bom, bom era se alguém se lembrasse de instalar um motor elétrico para ajustar as lâminas da saída do ar da ventilação e outros quatro para recolher os puxadores e ganhar 100 metros de autonomia por cada carregamento. Já existe, eu sei. Por isso é que um carro moderno tem 48 motores elétricos. Quando não tem 63 ou 71, na versão topo de gama.

Até porque se a eletrificação é o futuro – e disso eu não tenho muitas dúvidas, apenas do “quando” e “para quem” – então que seja em tudo, nem que o meu futuro carro novo tenha um motor para o fazer andar e outros 47, 62 ou 70 para me servirem e fazerem sentir especial, com massagens e todas as mordomias. Porque neste momento ter um carro velho é também um luxo, é caro e, caramba, se eu falar para o meu carro ele não me responde. E só me massaja as costas quando passo num buraco. Das duas, uma: ou estou a ver mal a “coisa” ou andamos com as prioridades trocadas. Gostava de ter um pequeno elétrico, mas até ao dia em que os carros voltarem a ser objetos para nos facilitarem o quotidiano, vou tentar evitar revisões de quatro dígitos e manter-me neste luxo de conduzir um carro com 15 anos, motor Diesel e 200 mil quilómetros rodados. Puro luxo.






