Cupra Leon VZ Extreme: parar no tempo, de acelerador a fundo
Sabia, com antecedência, que este automóvel ia impressionar. Sabia, igualmente, que ia criar boas memórias e, assim, deixar saudades. Tive disso perfeita noção assim que o vi pela primeira vez. Ainda ao longe, mesmo na escuridão daquela chuvosa e ventosa noite de inverno, aquele automóvel destacava-se dos muitos outros que por ali se encontravam estacionados. Um foco de luz iluminava-lhe discretamente a frente, como que a proteger o mais valioso de todos os que ali estavam dos perigos da noite. Os reflexos frios e arroxeados que saltavam da pintura Dark Void, amplificados pela água que nela batia, confirmavam-no. Em repouso, adormecido, naquela noite a mim interdito, mas ali estava ele, o Cupra Leon VZ Extreme.

Ainda não era o meu dia de lhe por as mãos em cima. Só os olhos. Aguardei pacientemente, tentando controlar o inevitável. Quando algumas semanas depois ali regressei para, finalmente, naquele final de tarde, o trazer comigo, rendi-me de imediato. Entre sentar-me pela primeira vez na belíssima baquet que mais parece saída de um automóvel de competição, ajustá-la à minha posição de condução ideal, regular os espelhos, colocar o cinto e pressionar o botão de arranque do motor, passaram-se uns 30 segundos que chegaram para confirmar o que há semanas já sabia. Existem automóveis que nos fazem sentir especiais e este Leon é para mim disso um grande exemplo. E o melhor estava ainda para vir. Claro que estava.


Quando o automóvel é, também ele, especial, tenho por hábito recorrer a uma estrada que, à falta de melhor palavra, é perfeita para explorar um pouco as suas capacidades dinâmicas. Foi exatamente para aqui que me dirigi assim que saí do parque da Cupra. O sol estava já muito baixo, dando à envolvência daquela meia dúzia de quilómetros de estrada os tons alaranjados de final de dia que muito aprecio, não só para fotografar, mas também para desfrutar de braço assente na porta. Porém, a bordo deste Leon, impunha-se outro tipo de abordagem, um pouco mais veloz e exigente para máquina, antes que o sol se pusesse totalmente no horizonte.


Na primeira metade do percurso, as curvas são relativamente abertas e o asfalto não só é excessivamente abrasivo como peca por ter alguns remendos mal aplicados, pelo que não entrei “com tudo” a fim de proteger os pneus Bridgestone Potenza Race e também porque a velocidade ali possível de atingir em muito excederia aquilo que considero responsável. Coloquei o amortecimento variável numa configuração de dureza intermédia e lancei-me aos primeiros metros, confirmando que, mesmo a “meio gás”, o ritmo rapidamente se torna elevado. Mesmo com uma força de amortecimento relativamente reduzida, as deslocações de massa estão muito bem controladas e nunca desequilibram a colocação das rodas da frente com movimentos excessivos da carroçaria. Longe de estar sobre carris, em cima daquele asfalto cansado, o Leon curvou como se assim estivesse, rápido, mas sereno.
Até com pneus de medida 235/35, as imperfeições do piso são bem absorvidas e nunca descompensam excessivamente o eixo traseiro, mesmo nas situações de maior apoio lateral, em que mais se exige da borracha das rodas exteriores à curva. Sob aceleração, é chamado a intervir o diferencial autoblocante, ajudando, e de que maneira, a gerir o impulso dos 300 cv e 400 Nm. De qualquer forma, principalmente sobre piso húmido, exige-se progressividade no regresso ao acelerador, não sendo de todo impossível que as rodas da frente percam tração a velocidades já acima dos três dígitos. Este 2.0 TSI nunca deixa de impressionar pelo seu enorme pulmão, parecendo até ter mais pujança do que os seus números anunciam. Da transmissão DSG já pouco mais há a dizer, exemplar, sempre fluída, sempre rápida. O casamento perfeito entre motor e caixa.


Mais à frente, já na segunda secção deste meu pedaço de estrada de eleição, o asfalto foi recentemente renovado e as curvas tornam-se bem mais apertadas, resultando numa sequência com variações verticais absolutamente deliciosa para colocar à prova as capacidades do chassis do Leon. Para estes escassos 1.000 ou 1.500 metros, onde as altas frequências são praticamente nulas, coloquei a suspensão na afinação mais agressiva e lancei-me com mais ímpeto, levando mais velocidade, porém com muita confiança, para dentro da curva. Isto porque já sabia do que eram capazes os travões, permitindo-me carregar a frente com o pedal da esquerda e assim aliviar a traseira para convidar o Leon a uma pequena deriva de posicionamento para, a partir desse momento, voltar ao sempre cheio, sempre disponível motor TSI e dali sair para atacar a próxima curva de que o Leon tanto gosta de devorar. Tremendo. Viciante.

Este ensaio não teve, felizmente, a brevidade de que, na verdade, precisei para chegar às minhas conclusões. O VZ Extreme passou comigo alguns dias, tempo que usei para o conhecer, para dele desfrutar, mas acima de tudo para celebrar o automóvel enquanto produto de paixões. Este é um desses automóveis, feito por quem deles gosta e com quem deles gosta em mente. E nos tempos que correm, esta abordagem emocional ao automóvel, cuja continuidade é tantas vezes colocada em causa, deve ser por nós, petrolheads, celebrada. Naquela mágica meia dúzia de quilómetros, o tempo pareceu não passar, como que num momento de perfeito alinhamento geral. Ali, naqueles breves minutos, naquele cenário, nada foi mais rápido do que o Leon. Só a luz que já não me recebeu quando lá em cima encostei para tudo aquilo assimilar. O tempo afinal tinha passado, mas confirmei que, mesmo em 2026, os automóveis ainda nos fazem sonhar. Este Cupra Leon é um deles.






